01/02/2017

A receita do amor - Parte 2

Eu levantei do chão e olhei pelo olho mágico antes de abrir a porta. Penso que minha vida seria mais fácil se todos os seres humanos tivessem um olho mágico através do qual eu pudesse olhar antes de decidir deixa-los entrar. Ou quem sabe um manual de instruções. Sim, um manual seria perfeito. Mas talvez inútil já que a imprevisibilidade é inevitável.
Quando vi quem era meu coração acelerou, fazia um mês que eu não via aquele rosto. Será que eu deveria abrir? E se ele não lembrasse mais de mim? Acho que no fundo era isso que eu queria mesmo, não ser lembrada, ter a oportunidade de começar do zero e causar uma impressão boa dessa vez. Mas nada disso faz sentido algum, eu preciso abrir a porta mas não tenho coragem. A campainha tocou de novo em menos de 30 segundos. Este gesto me fez perceber que algumas coisas não mudam. Ele ainda era impaciente. E definitivamente gato, o tipo que faz você virar discretamente pra olhar de novo quando passa do lado dele na rua. Eu poderia ignorar o barulho da campainha e seguir em frente sem olhar pra trás. Eu pensei diversas vezes, se eu abrir a porta não vai ter volta. Será que eu estou preparada pra olhar de novo aqueles olhos? Ele estava virando as costas para ir embora, vi pelo olho mágico que ele já tinha dado um passo para trás, desistindo de mim, digo, desistindo de tocar a campainha de novo, quando eu simplesmente abri a porta sem dar ouvidos aos diversos pensamentos contrários que tentavam me impedir. Simplesmente abri e não achei que a cara de surpresa que ele fez fosse me causar a estranha sensação que sentimos na barriga quando o carrinho da montanha russa despenca subitamente. Ele estava tão atônito quanto eu ! Por um momento ele parecia ter se esquecido completamente do motivo que o levara até a minha porta. Pedi pra ele entrar rápido antes que os bichos tentassem escapar. Ele entrou, me deu um beijo no rosto e logo disse que tudo aquilo tinha sido um engano. Me falou que estava batendo de porta em porta na vizinhança a procura do seu cachorro que tinha uma coleira rastreadora. Pela primeira vez na vida ele me deu uma notícia boa! Que ótimo que eu não precisaria ter que tomar providências em relação aquele filhote. Um problema a menos pra cuidar. Ao mesmo tempo penso que não sei o que é pior, talvez se aquele cachorro fosse de qualquer outra pessoa no mundo essa história poderia ser um pouco menos perturbadora.
É estranho quando seu passado, mesmo que recente, volta de forma tão brusca pra sua vida. Eu entreguei o cachorro pra ele, não conversamos, aquela coincidência foi um tapa na cara de quem havia passado o mês inteiro tentando esquecer o dono do cachorro. Ele me agradeceu e disse que precisava ir embora pois tinha uma prova no dia seguinte e precisava estudar. Eu fingi que aquela visita não tinha me perturbado profundamente, disse que também precisava fazer alguma coisa qualquer e levei ele pra porta.
Ele foi embora. 
Ver aquele rosto de novo mesmo que por alguns minutos derrubou todas as paredes que eu tinha erguido pra tentar me proteger. 
Eu vou contar pra vocês tudo sobre esse estranho que chegou na minha vida um dia sem pedir, pousou rapidamente e logo partiu. Mas partiu sem que eu quisesse, sem ao menos pedir desculpas por ter invadido meus pensamentos por semanas. Sem ao menos dizer adeus...

Continua ... 

Parte 1



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