20/12/2016

A receita do amor - Parte 1

Eu decidi deletar meu tinder, estava cansada de conhecer dezenas de boys babacas que sumiam logo depois de conseguirem o que queriam. Estava cansada de me deixar iludir, cansada de me apaixonar pelas pessoas erradas e acima de tudo : cansada de tentar. Deletar o tinder foi um gesto simbólico da desistência completa e total da minha vida amorosa. 
Liguei o famoso "foda-se" e fui para a rua pensar. Coloquei meus fones de ouvido pra me separar da mediocridade ao redor. Me sentindo vazia eu fechei a porta e perdi a chave na bolsa junto com meus cigarros amassados. Andando sem rumo pensei em tudo que me incomodava extremamente e me fazia ter vontade de gritar pro mundo inteiro ouvir. Lembrei daquele cara que me disse não ser como os outros e dois dias depois ele era mais um cadáver nos meus contatos. Eu já posso montar um cemitério com todos os caras que morreram pra mim. Eles ficam parados, sem ação ou reação, quando falam, meu desejo é que nunca tivessem dito nada, mas quando não falam, eu sinto que meu mundo vai desabar. Quando foi que eu me tornei tão sensível?
Por que será que eu me importo tanto com pessoas que claramente não poderiam se importar menos com a minha existência?
Naquele dia eu estava puta da vida, querendo odiar todos os homens do planeta por serem tão babacas. Nesse mesmo dia uma amiga me contou que foi traída pelo namorado que diz amar ela mais do que tudo. Perdi as esperanças completamente. Não é possível que não exista pelo menos um homem que preste nessa cidade cinza. Eu estava com tanta raiva que devia estar aparente na minha cara de louca. Algumas pessoas mudavam o lado da calçada pra desviar de mim e do meu jeito rápido de andar. Aquele andar determinado de quem claramente está querendo matar alguém. Juro que sou uma pessoa pacífica mas quem nunca teve um dia de raiva ? A raiva é um ótimo remédio para a tristeza ! Ao invés de ficar triste por causa dos boys que não deram certo, eu fico com raiva. Em teoria funciona magnificamente. Na prática... bem, na prática eu sou capaz de ter uma crise de choro só de passar na rua do cara. E foi andando com pressa e com ódio no coração que eu consegui tropeçar em um filhote de cachorro enquanto acendia um cigarro. Foi tudo muito rápido, quando vi já estava todo mundo no chão ! Eu, o cachorro, o fone de ouvido enrolado em nós, os cigarros espalhados e por último mas não menos importante: minha dignidade. Me senti péssima porque o cachorro começou a gritar e quem passava do nosso lado poderia dizer que presenciou uma cena de maus tratos. Era só o que me faltava, além de encalhada ainda ir presa. Tudo isso foi em menos de um segundo, claro, quando olhei pra cima tinha uma mão estendida. Era uma mão masculina então pensei duas vezes antes de pegar. Peguei, não estava em posição de escolher muito afinal. 
Meus caros, aqui vocês vão ter a impressão de que essa é mais uma história clichê, onde de repente a mão amiga era do dono do cachorro que era um cara lindo,  mas na verdade a mão era do varredor de rua que estava fazendo seu trabalho quando um ser humano resolve cair no meio da calçada. Apenas detalhes não importantes...
Eu levantei e peguei o cachorro que parecia estar sozinho, ninguém por perto veio reclamar a sua guarda então levei ele embora no colo. Como ele relutava muito, acabei colocando ele no chão. O louco começou a correr e eu tive que ir atrás. Depois de 10 minutos, 50 buzinas de carro e vários atropelamentos impedidos pelas mãos de Deus eu consegui capturar a cria. Agora você não me escapa mais, pensei. Ele me olhava com curiosidade, meio perdido e ainda cheio de adrenalina depois de toda a correria.
Eu nunca imaginei que iria voltar com um cachorro pra casa, ainda estava meio atordoada pensando em como iria fazer pra cuidar dele. Quando você é apenas uma estudante com pouca grana em SP, ter um cachorro em casa de repente é como descobrir que está grávida sem querer. Em ambos os casos você se fudeu lindamente. 
Primeiramente (fora temer) peguei um pouco da ração do gato pra dar pra ele (sem julgamentos, era a única comida animal que tinha em casa) e um pote com água. Peguei meu cigarrinho de artista e fui pra fora deitar no chão e olhar pro céu. O filhote dormindo, meu gato puto comigo e o volume da música no máximo me impediu de ouvir a campainha tocando. Só percebi que tinha alguém na porta porque o cachorro começou a pular loucamente e eu tive que atender. Já levantei puta porque eu só queria descansar, quem ousa me interromper neste momento tão pessoal e sublime ! Que absurdo !

Continua.... 

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