16/04/2019

Vitimismo

Como eu odiava essa palavra, achava que era uma baita falta de sensibilidade dizer que alguns doentes se vitimizam. Achava super normal sentir pena. Hoje sei que a pena é o alimento de quem se faz de vítima. O vitimismo tem um certo conforto porque ele nos causa a impressão de ausência do peso da responsabilidade. Mas a responsabilidade SEMPRE está presente, devemos vigiar com amor nossas ações, pensamentos e sentimentos, não nos julgando, mas nos conduzindo amorosamente de volta aos bons pensamentos, aqueles que nos elevam, nos enriquecem, nos iluminam e enchem de alegria. Meus amados, o caminho mais curto para a alegria infinita é ser o melhor que podemos ser aqui e agora. Em tudo que fizermos vamos nos doar, vamos dar o máximo. Como? AMANDO. Se tivermos uma doença seja ela pelo motivo que for, vamos agradecer a oportunidade de crescimento, agradecer o desafio, porque uma das maiores alegrias é poder passar pelo inferno mais terrível com um sorriso no olhar, com o coração carregado pela gratidão de simplesmente existir , ser uma obra de arte divina, uma emanação do amor de Deus, o amor infinito, tão pequena nossa compreensão do tamanho dessa energia, agradeçamos ao Todo pela oportunidade de se UNIFICAR. Tudo torna-se tão pequeno olhando pro mar, imagina olhando pra Deus ? O que é uma doença pra Deus ? A natureza dele é SAÚDE, PROSPERIDADE, ALEGRIA, AMOR INFINITO !
Livre arbítrio é maravilhoso porque entendemos que somos sempre responsáveis. Deus nos presenteou de forma tão imensa que além da vida, fruto de seu amor imensurável pela nossa compreensão humana, nos deu também o mais belo presente, a LIBERDADE ! 
Que nossa oração seja de agradecimento e não de lamentação, que nosso sofrimento não seja maior que a nossa vontade de amar e buscar a Deus acima de todas as outras coisas. Onde está Deus ? Em tudo, no nosso vizinho que as vezes nem damos bom dia, em nosso colega de trabalho que julgamos pela aparência, no mendigo com sorriso no rosto, no animal morto para alimento em uma sociedade doentia, que pensa que o animal não é uma criatura divina, digna de proteção, amor e respeito, assim como todo ser humano. Não se respeita as leis Universais, se faz pouco caso dos recursos naturais, a natureza responde, não existe vítima, não existe culpa, existe responsa e amor. Ame e ajude, ame e não discrimine, não fale mal do seu irmão, viva sua vida, faça o bem, seja e espalhe amor, seja criativo e amoroso, a vida é gratificante quando conseguimos amar cada vez mais. 
Não existem vítimas, apenas consequências e escolhas. Tudo é emaranhado, imagine a equação que explica nossa vida, cheia de variáveis, pensa na relação de toda essa teia muito louca de causas e reações se entrelaçando com as milhares centelhas divinas encobertas por egos fracos espalhados pelo universo...
Considerando o tamanho do Universo, da brevidade das nossas existências temporárias nesta pele, o conceito de vítima se torna algo infantil. Vamos aproveitar o nosso tempo para trabalhar e ajudar o outro ? Vamos romantizar menos a realidade de forma a tomar atitudes para que ela seja boa. Vamos parar de colocar Deus como o ser que está longe e começar a enxergar a realidade, ele está mais perto do que imaginamos, dentro de nós, aquela voz amorosa que todos os dias nos direciona para o melhor e mesmo assim escolhemos ir para outro caminho, alimentando o ego, fracos. A força verdadeira é aquela que nos faz sentir vitalidade para fazer qualquer coisa, qualquer missão, sem preguiça, o Universo é pura evolução constante, movimento, transformação. Que delícia poder usar o livre arbítrio para nos tornar cada dia mais fortes, ajudar os outros a também se fortalecer, crescer, ver o mundo fluindo em riqueza abundante, o paraíso pode ser aqui. A mentalidade tem que ser estudo, foco, trabalho, amor, crescimento, união. Estamos longe mas a cada dia mais perto, a cada pessoa que perceber o quanto pode mudar o mundo fazendo a sua parte, estamos mais perto. A gente enxerga tanta coisa ruim todos os dias, tanta gente na pior, tanta gente que não tem 0,50 centavos pra comprar um pão para si, imagine para alimentar seus filhinhos? 
Em nossa tamanha ingenuidade e ignorância, desprezamos os mais fracos e humildes, que hoje isso possa mudar, que hoje você possa escolher ser melhor, maior, ser parte da mudança e não do problema. Que hoje você crie, ilumine, alimente, doe sorrisos, abraços, amor, todos nós temos algo para dar. Quando colocamos nosso foco em ajudar, desaparecem as vítimas.

Minha Cura

Eu passei por muitas experiências ruins nesta vida. Conheci o pior do mundo obscuro. Caminhei lado a lado com os pensamentos mais feios da periferia da minha mente. 
Eu tenho 28 anos e consegui destruir o que Deus criou com tanto carinho. Eu sentia prazer no meu sofrimento, porque era a única coisa real que eu conhecia. Era tudo que eu podia ver e tocar.
Eu comecei a querer fugir da realidade bem cedo, primeiro com livros e depois me entregando a qualquer chance de amor romântico.
Eu só queria sentir alguma coisa.
Aos 13 anos eu me cortei pela primeira vez. Eu era só uma criança sem conhecimento e informação. Virou rotina. Eu comprava as lâminas junto com as compras do mês quando ia ao mercado com a minha vó. Até hoje ela não sabe. Quase ninguém que me viu crescer sabe de tudo que vou escrever aqui.
Aos 15 comecei a beber álcool, primeiro nos fins de semana, depois, sempre que eu tivesse me sentindo sozinha ou entediada. Era tão socialmente aceitável, nem parecia que era algo tão ruim... Inclusive até pouco tempo atrás eu ainda achava engraçado ver gente bêbada.
Aos 16 comecei a fumar cigarro e usar qualquer droga disponível sem nenhum critério. Eu não tinha medo de nada. Eu justificava tudo com a frase "sou jovem e curiosa, quero experimentar tudo antes de morrer".
Acho que eu só queria sentir outra coisa que não fosse ódio por ter nascido com uma doença sem cura. Queria fugir do fato de que minha mãe tinha morrido aos 28 anos e eu me fazia de forte para não sentirem pena de mim. Mas no fundo eu a culpava por ter me abandonado sozinha com 11 anos, minha família fez o melhor com o conhecimento que possuía na época, mas eu nunca deixei de me sentir um enorme fardo para eles.
Eu queria fugir da lembrança do meu tio de 37 anos pedindo para me chupar quando eu tinha 14 anos. Eu não consegui falar pra ninguém da minha família por medo. Ele era a única referência masculina que eu tinha na minha vida, minha mãe nunca me falou nada de bom sobre o meu pai além de deixar bem claro que ele não queria contato conosco. Eu sou mais uma sem o nome do pai na certidão, não faz diferença mas é curioso.
Eu queria fugir de todas as vezes que me apontaram o dedo dizendo que eu tinha sarna, lepra, que minha pele era nojenta por causa da dermatite atópica.
A depressão foi tão inevitável que na verdade não sei dizer exatamente quando começou, mas acho que sempre fui uma criança triste por dentro. Por mais comunicativa e alegre que eu parecesse por fora, quando eu estava sozinha no meu quarto eu me permitia sentir dor de tanto chorar.
Eu não entendia que eu não estava sozinha. Eu não conseguia sentir a presença divina.
Pensamentos suicidas no meio do dia eram tão normais quanto sentir fome. Fome que eu passava propositalmente por ter tanto ódio de mim, eu queria emagrecer cada vez mais na tentativa de sumir de repente.
Em um dos meus insights no caminho da cura, descobri que tudo isso era apenas resultado da não aceitação da minha existência.
Depois que eu sai do buraco que eu mesma fiz, o primeiro sentimento que tive foi de profunda vergonha. Apaguei todos os meus textos, uma tentativa ingênua de apagar meu passado também.
Hoje, com amor, entendo que não preciso me envergonhar. Todos os meus erros foram essenciais para que eu chegasse onde estou.
Eu quero contar detalhadamente o processo de cura mas eu ainda estou no processo de limpeza. Por hora só gostaria de dizer que hoje sou livre. Eu deixei tudo pra trás e consegui me iluminar.
Hoje entendo que nada na vida é por casualidade e sim por CAUSAlidade. Eu entendi que eu sempre fui responsável por tudo ao meu redor. Não foi fácil aceitar que eu mesma estava criando a depressão e todas as outras coisas negativas. Mas depois aceitei que assim como eu era responsável pelo ruim, também era responsável pelo bom. O poder de criar harmonia e alegria são qualidades do meu ser. Logo, se apenas eu mesma posso mudar e criar minha realidade, vou focar o máximo possível para me tornar a melhor versão de mim.
Por hora, queria deixar registrado as resoluções dos obstáculos que relatei neste breve texto.
Eu parei de me cortar depois de 15 anos de automutilação.
Não bebo álcool nunca, nem socialmente, e atualmente eu entendo que é a droga mais perigosa, pois qualquer criança consegue acesso com facilidade as alegrias do estado de embriaguez, que parece ser tão bom mas na realidade é só mais um método de manipulação para nos manter longe da verdade divina. Mesma coisa sobre o cigarro, uma droga aceita para aliviar a ansiedade mas que causa mais ansiedade ainda, além de coisas piores.
Eu estou curada da dermatite atópica.
Eu estou curada da depressão.
Quando eu digo curada, quero dizer que minha saúde é perfeita, não tomo NENHUM remédio e a cada dia que passa me sinto mais saudável.
Tudo isso é resultado do trabalho mental e controle dos pensamentos 100% do tempo. Evidentemente os tratamentos médicos para a depressão e dermatite atópica foram uma ótima ferramenta enquanto necessárias, porém me disseram que eu teria que conviver com estas duas doenças talvez para sempre e eu escolhi não aceitar esta realidade.
Eu tenho muito pra compartilhar, minha estrada de auto conhecimento está sendo muito rica. Mas por hoje deixo este breve relato de alguém que não tinha mais esperança em continuar vivendo e hoje encontra alegria em todos os pequenos detalhes desta dádiva que chamamos de vida.
Se você sente vontade de se matar, por favor espere um pouco. Eu não me arrependo de não ter desistido.




29/07/2018

Isso é ansiedade ?

Acordei de madrugada e nāo conseguia voltar a dormir. Meu corpo estava tāo cansado mas minha mente nāo me deixava dormir. Era como se tivesse uma barra de ferro enroscada no meu peito e eu nāo conseguia tirar ela de mim. Eu andei de um lado pro outro, lavei o rosto...
De repente eu comecei a me sentir extremamente frustrada e intrigada, rolei de um lado pro outro, acordei meu gato sem querer, acordei meu namorado sem querer, me desesperei sem querer. 
Quando me dei conta eu já estava sentada na cozinha olhando pro nada e chorando que nem uma idiota. Eu nāo entendo por que, mas naquele momento era como se eu tivesse perdido alguém muito importante para a morte. Tāo familiar para mim. Aquela sensaçāo de que todo o ar que respiro me causa algo doentio, uma fraqueza mas ao mesmo tempo uma vontade de sair correndo até eu cansar. Meu peito doía muito, meu coraçāo parecia estar acelerado, eu só queria poder arrancar ele do meu peito e lavar ele na pia, colocar gelo nele, sei lá, qualquer coisa assim e voltar a dormir. Eu só precisava muito dormir profundamente sem sonhos. Eu sabia que aquilo nāo era normal. Eu olhava pra fora e sentia medo, olhava pra dentro e sentia pavor de estar presa dentro da minha própria pele. 
Eu me rendi e me entreguei ao sentimento insano de perda, era como se dentro de mim eu tivesse uma certeza enorme de que alguém que eu amo muito tivesse morrido.
Eu fiquei esperando tudo isso passar e perdi a noçāo do tempo completamente. 
Isso me deixou mais mal ainda por pensar que eu estava atrapalhando todo mundo, meu namorado e meu gato estavam agitados ao meu redor tentando me ajudar e eu me senti tāo culpada por atrapalhar eles com meus problemas. Me senti tāo estúpida por estar sentindo algo tāo estranho que eu nem sabia explicar, por estar chorando por simplesmente me sentir exausta e nāo conseguir adormecer.
Ainda nāo se passaram 24 horas desde que isso aconteceu. Depois de dois chás e sei lá quanto tempo (realmente nāo sei quanto tempo se passou mas parecia uma eternidade e que nunca iria acabar) eu senti um sono absurdo e dormi até as 13 horas. Acordei me sentindo melhor mas meu peito ainda doía e eu queria chorar por isso. Eu só queria acordar e me sentir super feliz como sempre me sinto. Cheguei a comparar isso com uma crise de depressāo e percebi que estou "acostumada" com a depressāo. Ela é mais forte porém mais psicológica. Eu sinto uma vontade enorme de sumir no espaço e simplesmente nāo existir mais. É uma dor conhecida e mesmo que seja horrível, é familiar. 
O que aconteceu ontem foi totalmente diferente. Foi físico ! Em uma crise de depressāo eu sinto que eu quero morrer e pronto. Em uma crise de ansiedade como aquela eu sinto que eu vou morrer ou que alguém morreu, que tem algo muito errado, que a qualquer momento vai cair uma bomba inevitável e eu nāo posso reagir entāo só posso chorar de despero e olhar pras coisas e me sentir um ser humano ingrato e ridículo.
Eu conseguí sair de casa com meu namorado, estava otimista que aquilo tinha sido algo passageiro e atípico e eu iria ficar de boas. Mas durante este dia, nestas mesmas 24 horas eu tive mais dois "ataques", nem sei como se chama isso, só sei que era a mesma sensaçāo de ter algo muito errado, uma sensaçāo de que nada fazia sentido, de que eu estava avulsa, de que o mundo nunca mais seria o mesmo e ao mesmo tempo eu tentando ser forte e lutar contra aquela onda gigante de afliçāo, tristeza e sei lá mais o que. E tudo ficava pior quando eu me lembrava do quanto eu tenho uma vida linda e perfeitamente ok neste momento, eu nāo tenho o direito de reclamar ou me sentir dessa forma. E parece que lutar contra essa onda faz ela ficar mais forte ainda. Lutar contra sintomas físicos que eu nāo faço ideia de onde estāo vindo mas ter a certeza que sāo frutos 100% psicológicos.
Eu precisava colocar isso aqui.
Eu precisava falar que quando eu estava no meio dessa tempestade que eu mesma causei eu só pensava em sobreviver. Totalmente diferente da depressāo que me faz acreditar que eu preciso me matar de algum jeito porque é a única forma de acabar com a dor que ela me causa. Eu só queria continuar viva e esperar a coisa toda passar mas pra isso eu precisava estar em outro estado mental. Eu precisava beber alguma coisa pra me fazer esquecer aquilo. 
Aqui estou. 
Eu espero que isso nāo se repita mas tenho medo. 
Na verdade talvez já esteja se repetindo porque sāo 04:50 da manhā e eu nāo sinto sono mesmo depois de ter passado a tarde e a noite toda bebendo gin. 
E penso em continuar porque o sono ainda nāo vem e eu estou conseguindo pelo menos colocar em palavras tudo isso. Eu vou continuar até o sono vir.
Eu nunca mais quero me sentir assim.



17/10/2017

Sal

Eu quero me limpar, drenar de mim todos os sentimentos que me fazem ceder. Retroceder e não entender. Não quero achar que preciso entender. Quero ceder e desaparecer. Desaparecer dessa história que nunca foi minha. Pintar todas as paredes de amarelo pra que minha ansiedade seja menos apática. Eu quero arrancar pedaços de mim. Sangrar até morrer a parte que me impede de ser quem eu sou. Mas será que sou ? Você me confundiu. Me fez achar que o preto era dourado, mas hoje está tudo acabado e só vejo o escuro. Eu não sei quem você se tornou. Eu sinto pena de mim. Achei que era de ti, mas no fundo fui eu que morri. Me colocaram no meio de uma guerra que nunca foi minha pra brigar. Me fizeram achar que eu era culpada pelos erros que eu nunca cometi. E agora eu fico aqui, observando e incapaz de me mover. Confusa demais pra entender e separar, deixei entrar em mim tudo que veio de fora, se misturou no meu sangue elementos que não eram meus. Eu não consigo mais separar. Eu quero tirar isso de mim. Esse comprimido azul que só me faz enganar.  Quem sou eu ?
As vezes eu me esqueço de todas as partes boas que existem em mim, todos os pensamentos de evoluir e caminhar em frente, de repente viram sangue que me obrigam a engolir. É uma violência brutal contra mim e eu já nem sei de onde vem tudo isso. Talvez essa seja a herança que você me deixou. Uma eterna confusão. Eu pensei que quem precisava de ajuda era você. 
Eu quero me limpar, mergulhar profundamente em águas densas cheias de sal, perder a respiração embaixo do mar e engolir o oceano. Eu quero morrer. Morrer para ressucitar. Quem sabe assim eu consiga finalmente uma página em branco. Eu quero um livro novo. 
Eu preciso me libertar dessas correntes que me sugam, não me deixam respirar. Eu puxo o ar e ele se vai. 
Eu preciso me sentir vazia. Eu estou perdendo a sanidade que ainda tinha. 
Eu faria qualquer coisa para não lembrar de mais nada. 

Eu preciso me limpar. 

22/08/2017

Hoje eu chorei

Hoje eu chorei e nem percebi, mas quando percebi me dei conta de mim. Aquele velho eu para quem dei adeus e prossegui. Prossegui porque já não existia lugar pra mim ali. Ali, onde tão feliz fui mas hoje choro com vontade de poder voltar e me impedir. Me impedir de me machucar tanto, me impedir de amar com tanta confiança, me impedir de acreditar com tanta inocência. 
Eu me vi, me vi no espelho e não me reconheci. Essa pele você nunca tocou. Esses cabelos você nunca viu crescer. Chorei porque senti falta de mim. Talvez tenha sentido um pouco de ti, que hoje está por aí, mas desapareceu. Junto com toda a poeira e as fotos que me deixam doente. Junto com todas as lembranças que enlouquecem minha mente, meu passado você tirou de mim. Até mesmo o mais forte dos seres sem chão ficaria diante de tamanha agonia. A agonia de entender o que se passa quando as bocas se calam. Calar os sonhos que nunca se concretizaram. Concretizar a vida que existiu mas deixou de ser. Deixou de ser porque minha energia já não é a mesma. Como poderia ser? Sinto ódio e pena daquele frágil ser humano sem a menor estrutura emocional para lidar com as escolhas que a vida me fez fazer. Me fez. A vida me fez. Eu me fiz e hoje chorei. 
Chorei porque olhei pro espelho e não me vi. Me via mas não podia sentir. Sentia mas não podia enxergar, onde é que eu vim parar? Eu estou melhor, mas estes pensamentos de repente me assombram, fazem a imagem no espelho me tocar. Ela me toca, com toda a sua raiva guardada daqueles que deveriam ter estado ao seu lado mas se omitiram. Ela me toca com todas as lâminas que usou para ferir a pele que hoje é minha, só minha, não me toque. Ela me tocou com aquela tristeza cheia de dor, uma dor tão grande que só a morte poderia amenizar. Talvez nem isso. 
Hoje eu chorei. Chorei porque ela me tocou com todas as vezes que sentiu ciúmes de coisas que não deveria sentir. Porque todos os sentimentos descontrolados e em excesso daquele ser incompreendido causaram danos irreparáveis. E eu mudei, eu juro que sou melhor, eu juro que consigo olhar para tudo isso e perceber que eu cresci. Eu cresci muito e você não está mais aqui. Vocês me deixaram e hoje eu chorei. 
Chorei porque me olhei no espelho e finalmente pude me ver. Ela cresceu e deixou de existir. Como pode existir algo assim? Hoje sou mansa, quem escreve é ela. Visceral. A alma que sangra e não controla ou mede seus dedos na hora de escrever. A mão é pesada como o peso que sua alma carrega nas costas. Sua poesia é pouco entendida por aqueles que nada sabem sobre a vida. Pouco sabem o que é viver em guerra dentro da sua própria pele ou viver em um corpo que você odeia. 
Ela era assim. Mas vivia a sorrir e a viajar por aí. Fez amigos em todos os cantos do mundo e nunca faltou um sofá para dormir. Ela sempre conseguiu se safar das piores enrascadas, nos piores pesadelos era ela quem amedrontava, ela me destruiu. Eu te destrui para fazer um novo eu. Mas quando vejo no espelho eu só consigo sentir todas essas palavras sangrando de dentro de mim e caindo no chão branco e eu chorei. Chorei e escrevi. 
Aqui está o pedaço que te cabe. Um dia eu vou ter que decifrar todas essas chaves misturadas, mas agora não. Eu só preciso prosseguir. E eu prossigo. Sem você.
Hoje eu chorei.