17 de abr de 2018

2001 em diante

Sozinha na calçada suja ela sentou com a cabeça baixa.
O volume dos fones de ouvido eram ouvidos por qualquer um que chegasse perto demais, assim como as cicatrizes que se deixavam mostrar nas mangas que as vezes levantavam sem querer.
Deixando pele demais aparecer.
Ela nāo poderia se importar menos com os olhares ou com as falas ou com os sussurros ao redor quando ela passava. 
Ela simplesmente era. 
Ela simplesmente era toda a tristeza do mundo condensada em uma garota pequena demais para entender. 
Pequena demais para se defender ela lutou contra tudo que o mundo dizia que era certo.
Ela foi o próprio brilho na escuridāo de um universo que sempre esteve morto. 
Ela argumentava com as poucas garras que tinha contra opiniões fortes demais.
Preconceitos fortes demais para que ela pudesse ceder.
O mundo feria, a música doía, a poesia fazia ela sangrar.
A noite caia, o mundo dormia e ela continuava a cantar. 
Sem voz.
O mundo nāo parou para oferecer a māo.
O sangue caia no chāo. 
Todas as gotas foram contadas como livros de uma página de uma história sem fim. 
Ela ficou jogada ali, no canto daquele sofá, chorando por alguém que nāo teve tempo de se despedir.
Todos os outros atos deste teatro foram assim. 
Muitos vieram, poucos ficaram e ela fez questāo de expulsar todo mundo com a sua fúria contra Deus.
QUEM É DEUS ?
Ele deixou ela ali para aprender uma liçāo.
Ela era nova demais para entender. 
Entender que os pais se vāo, as vezes sem nem terem tempo de chegar.
Ela ligou ligações que jamais foram atendidas, desafiou mensagens nāo respondidas e um teste negativo de DNA.
Seu peito foi aberto 10 centímetros a mais do que o médico havia prometido! 
Ela confiou em você e você culpou as substâncias desconhecidas.
Mas nāo foi ele quem acordou em uma cama com os braços amarrados no escuro da UTI.
Hematomas roxos everywhere, tontura e vontade de morrer. 
Ninguém estava lá quando ela acordou.
Morfina a vontade nāo foi o suficiente para mascarar a dor.
Mamāe eu sinto sua falta e seja lá onde você esteja agora, nāo olhe para mim.
Estou feia demais para ser vista por qualquer ser humano que tenha capacidade de enxergar.
Pensei que fosse meu segundo fim.
Ela queria sobreviver apenas para morrer de novo. 
A dor era sua melhor amiga.
Aos 13 quando esteve internada pela primeira vez e viu sua avó sair chorando do quarto pois nāo suportava ver sua dor, ela começou a entender.
Aos 14 quando seu melhor amigo, tio, pai, confidente, ofereceu lamber suas partes íntimas quando ela nem ao menos sabia como era o gosto de um beijo, ela começou a entender.
Aos 15 quando seu corpo ainda era tāo pequeno, foi quando a semente do desejo de ser menor ainda foi plantada em seu ser.
Ela nāo sabia, mas essa seria a sua maior destruiçāo, a auto destruiçāo e o início de um caminho sem volta.
Vinho, cigarro, comprimidos, cocaína.
Beijos, sentimentos, anfetamina.
Ausência, cocaína, paraíso.
Mais cocaína.
A queda.

Continua...