22 de ago de 2017

Hoje eu chorei

Hoje eu chorei e nem percebi, mas quando percebi me dei conta de mim. Aquele velho eu para quem dei adeus e prossegui. Prossegui porque já não existia lugar pra mim ali. Ali, onde tão feliz fui mas hoje choro com vontade de poder voltar e me impedir. Me impedir de me machucar tanto, me impedir de amar com tanta confiança, me impedir de acreditar com tanta inocência. 
Eu me vi, me vi no espelho e não me reconheci. Essa pele você nunca tocou. Esses cabelos você nunca viu crescer. Chorei porque senti falta de mim. Talvez tenha sentido um pouco de ti, que hoje está por aí, mas desapareceu. Junto com toda a poeira e as fotos que me deixam doente. Junto com todas as lembranças que enlouquecem minha mente, meu passado você tirou de mim. Até mesmo o mais forte dos seres sem chão ficaria diante de tamanha agonia. A agonia de entender o que se passa quando as bocas se calam. Calar os sonhos que nunca se concretizaram. Concretizar a vida que existiu mas deixou de ser. Deixou de ser porque minha energia já não é a mesma. Como poderia ser? Sinto ódio e pena daquele frágil ser humano sem a menor estrutura emocional para lidar com as escolhas que a vida me fez fazer. Me fez. A vida me fez. Eu me fiz e hoje chorei. 
Chorei porque olhei pro espelho e não me vi. Me via mas não podia sentir. Sentia mas não podia enxergar, onde é que eu vim parar? Eu estou melhor, mas estes pensamentos de repente me assombram, fazem a imagem no espelho me tocar. Ela me toca, com toda a sua raiva guardada daqueles que deveriam ter estado ao seu lado mas se omitiram. Ela me toca com todas as lâminas que usou para ferir a pele que hoje é minha, só minha, não me toque. Ela me tocou com aquela tristeza cheia de dor, uma dor tão grande que só a morte poderia amenizar. Talvez nem isso. 
Hoje eu chorei. Chorei porque ela me tocou com todas as vezes que sentiu ciúmes de coisas que não deveria sentir. Porque todos os sentimentos descontrolados e em excesso daquele ser imcompreendido causaram danos irreparáveis. E eu mudei, eu juro que sou melhor, eu juro que consigo olhar para tudo isso e perceber que eu cresci. Eu cresci muito e você não está mais aqui. Vocês me deixaram e hoje eu chorei. 
Chorei porque me olhei no espelho e finalmente pude me ver. Ela cresceu e deixou de existir. Como pode existir algo assim? Hoje sou mansa, quem escreve é ela. Visceral. A alma que sangra e não controla ou mede seus dedos na hora de escrever. A mão é pesada como o peso que sua alma carrega nas costas. Sua poesia é pouco entendida por aqueles que nada sabem sobre a vida. Pouco sabem o que é viver em guerra dentro da sua própria pele ou viver em um corpo que você odeia. 
Ela era assim. Mas vivia a sorrir e a viajar por aí. Fez amigos em todos os cantos do mundo e nunca faltou um sofá para dormir. Ela sempre conseguiu se safar das piores enrascadas, nos piores pesadelos era ela quem amedrontava, ela me destruiu. Eu te destrui para fazer um novo eu. Mas quando vejo no espelho eu só consigo sentir todas essas palavras sangrando de dentro de mim e caindo no chão branco e eu chorei. Chorei e escrevi. 
Aqui está o pedaço que te cabe. Um dia eu vou ter que decifrar todas essas chaves misturadas, mas agora não. Eu só preciso prosseguir. E eu prossigo. Sem você.
Hoje eu chorei.