14 de dez de 2016

As tragédias que acontecem quando se esquece o antidepressivo

De tempos em tempos eu esqueço de tomar meu remédio por alguns dias, não é de propósito, alguns vão dizer que é uma auto sabotagem inconsciente. Talvez seja. Só sei que acontece e quando me dou conta já estou em outro estado mental. É estranho perceber o quanto não tenho controle absoluto sobre as coisas que meu cérebro decide fazer. De repente começo a ficar mais sensível do que já sou para qualquer coisa, leio meus diários e começo a perceber apenas as injustiças e perdas de minha vida. É como se de repente eu esquecesse que há dois dias atrás eu me considerava a garota mais feliz do planeta. E assim, de repente, começo a acreditar que essa é a minha realidade e por alguns instantes, segundos que passam lentamente como horas em uma fila de espera sem fim, eu me permito sentir pena de mim. E quando isso acontece acaba toda a minha coragem de enfrentar qualquer coisa. Fico aflita e com medo de encarar o mundo, como se eu não tivesse o direito de ser tão feliz quanto os olhos que me despem a alma. Como se todo mundo pudesse ver exatamente quem sou sem que eu tivesse chances de me explicar, sem voz para me defender das acusações desse júri que me condena por crimes que não cometi. 
Começo a duvidar da minha sanidade mental!
Começo a duvidar de quem eu realmente sou: seria a minha personalidade verdadeira aquela com ou sem o efeito do antidepressivo? E por que? Por que não posso saber quem eu sou realmente, por que minha mente brinca comigo assim? Esses pensamentos me consomem em um eterno loop. Eu só queria que a roda parasse de girar, estou me sentindo tonta e as náuseas são inevitáveis. Me lembro que tudo isso talvez seja apenas o efeito da falta do remédio, corro para tomar o mais rápido possível. As náuseas aumentam mais ainda, as vezes não é possível manter no estômago o jantar que acabei de comer. Cuidar da mente as vezes tem esses efeitos colaterais. Mas nada tão grave quanto a vontade de me jogar do prédio mais alto da cidade. Me abraço e espero que o efeito da droga seja rápido. Fecho os olhos e busco em minha mente os meus melhores dias de sol, intercâmbios, amores, beijos na chuva, warped tours, cervejas, aquele menino do sotaque lindo que não sai da minha cabeça, meu gato, os amigos, festas, férias no rio, horas que passei boiando no mar e olhando pro céu sentindo que eu era parte essencial de toda a grandiosidade daquele azul infinito, eu era o oceano e o oceano inteiro cabia dentro de mim. Logo vem o sentimento de pertencer. As lágrimas de medo vão secando, medo de voltar para o abismo que a depressão é capaz de me colocar, um local escuro onde esperança não há! Respiro fundo e me concentro no que mais importa "estou viva" ! E com a gratidão por simplesmente respirar, junto com as memórias mais belas que um ser humano pode ter, eu me recomponho. Nem tão forte, mas nem tão fraca que eu não consiga me levantar sozinha. Estou acostumada a sair da lama sem ajuda de uma mão. Nunca mais duvido da minha força, força que aperta a faca na mão se for preciso pra conseguir se puxar pro alto, sempre, e me recuso a descer daqui. Só espero um dia entender quem realmente sou, não depender de um remédio pra conseguir viver normal. 
Depois que o pesadelo passa, me lembro da importância de nunca esquecer de tomar a porra do remédio, pode não ser o ideal agora, mas se é isso que eu preciso para ficar bem, que seja...
Eu só quero poder sorrir e ser a menina mais feliz desse mundo sem precisar de um comprimido pra me convencer disso.