13 de set de 2016

Estou viva e respiro bem. Obrigada é pouco !

Ano passado eu levei o maior susto da minha vida.
Tinha acabado de voltar de um mês incrível de férias, conheci vários países novos, estava feliz, linda e ruiva cursando o terceiro ano de direito quando de repente fiquei doente e tive que fazer uma cirurgia. Acho que você nunca mais é a mesma pessoa depois de ter o corpo aberto em um hospital. Tem muito medo e ansiedade envolvidos para que você consiga simplesmente ficar normal. Mesmo depois de toda a experiência que tive, que começou em outubro de 2015 e dura até agora (pois as cicatrizes ainda não desapareceram) eu as vezes me esqueço de lembrar da importância de tudo que aprendi dentro do hospital. 
No hospital você vê gente na pior, bem pior que você. Mas isso não melhora o seu dia nenhum pouco. No hospital você vê gente que vive, gente que sobrevive e gente que morre. E não necessariamente uma morte física e sim uma morte mental. É triste ! Ninguém vai parar em um hospital porque quer, ninguém quer estar ali. E foram naqueles momentos que percebi o que eu tinha esquecido há tempos : ser grata pela vida! Eu acho uma pena que eu precise de tanto tapa na cara pra lembrar que eu tenho que agradecer por simplesmente respirar.
Parece bobo? Quando você acorda às 10:00 no dia seguinte de uma cirurgia que começou as 13:00 do dia anterior, sozinha em uma UTI escura, com os dois braços roxos e cheios de marcas, impossibilitada de respirar e se mexer sem sentir que estão enfiando uma faca no seu peito (literalmente enfiaram uma faca no meu peito), você deixa de achar a gratidão por simplesmente respirar uma coisa boba. Naqueles momentos eu senti toda a fragilidade do universo em mim. Eu só queria chorar e odiar tudo por eu estar ali. Eu queria estar em qualquer lugar, fazendo qualquer outra coisa, menos ali, rasgada, cheia de cicatrizes internas e externas... Como um evento de um dia pode mudar uma pessoa para sempre? Aquilo me mudou ! Na minha cabeça era como se eu tivesse pedido pra tudo aquilo acontecer. E eu lembrei que já pedi isso uma vez ... Uma vez quando eu estava tão deprimida que pensei que tudo que eu queria era estar em um hospital, pra não ter que fazer mais nada por mim, pra que alguém lutasse pela minha vida por mim, pois ela já não me tinha muito valor. Alguns meses depois eu estava lá, exatamente onde eu tinha pedido pra estar. Em um hospital, conectada em vários paranauês e precisando de ajuda para aprender a respirar de novo. Precisando de ajuda pra sentir vontade de viver. Precisando de ajuda pra ainda me achar bonita mesmo com dois tubos saindo de dentro do meu peito e um corte de 10 centímetros que doi até hoje. Eu gritava, chorava e a dor persistia. A dor me consumiu de todas as formas possíveis. A dor era tanta que nenhum analgésico parecia funcionar, nem uma bomba de morfina que me deixava totalmente drogada e me tirava toda a fome conseguia amenizar. Cada dia era uma vitória e eu fazia mais do que me era recomendado. Quando você fica dependente dos outros você começa a valorizar TODAS as pequenas coisas. Poder tomar banho sozinha foi delicioso. Conseguir levantar da cama sem ajuda me custava grandes esforços e muita dor, mas eu tentava e tentava até conseguir. Eu venci a dor, eu venci o medo, eu venci os erros que não me contaram, eu venci tudo que era pra dar errado e não deu. Foram oito dias de puro aprendizado dentro daquele lugar. Eu simplesmente precisava deixar isso aqui escrito, porque pretendo ler todos os dias pra não me esquecer . Eu não posso apagar de mim uma lição tão valiosa.
Essa cirurgia e todas as consequências dela me tornaram um ser humano mais frágil, por muitos meses eu precisei de cuidados. Eu não estava acostumada a depender de ninguém pra fazer nada pra mim, e ter que ser dependente, não ter minha liberdade por uma limitação física mesmo que temporária, me desconstruiu inteira, me destruiu e me tirou todas as convicções egoístas nas quais eu me apegava. Fiquei tão fraca e tão triste que achei que não ia mais sentir vontade de viver tão cedo. E ao mesmo tempo me sentia forte porém esgotada. Eu passei a minha vida inteira sendo forte, eu queria me permitir ser fraca, e acho que foi a primeira vez que me permiti sentir isso de fato. Não é estranho que minha depressão tenha piorado de uma forma tão cruel depois de tudo isso. E a onda de coisas ruins continuou por um bom tempo. Ainda estou me recuperando, estranho pensar que daqui a pouco completa um ano...
Sou um ser cheio de cicatrizes e tenho muito orgulho delas pois me lembram o quanto fui forte pra caralho. Jamais deixarei que me digam o contrário. Hoje respiro fundo e aliviada, a dor não está mais lá. Já não tenho um cisto de 5 centímetros bem no meio do meu peito, o pesadelo acabou. Quando lembro disso tudo e me percebo viva e bem, sinto uma gratidão tão grande pelo médico que fez com que tudo isso fosse possível. É um vínculo gigante que vou ter com esse ser humano pelo resto da minha vida. Não tem como apagar aquele rosto da memória. Só consigo me lembrar de quem esteve do meu lado, quem de alguma forma fez algo pra me apoiar. Por isso que sai daquele hospital cheia de amor mas também cheia de rancores pelas pessoas que eu esperei mas não apareceram nem pra dar um oi. Mas foi bom ! A vida peneirou meus contatos por mim. Hoje não faço questão de ser legal ou considerar nenhuma daquelas pessoas nas quais eu tinha tanta confiança e expectativa. Isso porque eu tenho uma família gigante e sabe quantos apareceram pra me dar um oi? Prefiro nem falar...
Hoje sou grata por respirar sem dor. Procuro valorizar cada gole de água que bebo, cada pedaço de comida que eu como, cada passo que ando e ando devagar, pois sinto que mereço aproveitar a paisagem da vida sem pressa. Chega de correr, chorar, sofrer... Depois de tantos episódios trágicos na minha vida, sinto que a parte boa deve estar chegando logo ali virando a página. Fico no aguardo. Vida, por favor me surpreenda com as melhores coisas que o universo pode me trazer, e saiba que eu sempre serei grata pelo pouco que tenho, afinal, aprendi minhas lições. Sei que não preciso de muito para sorrir. 

PS* Eu disse nesse post que um dia eu ainda viria aqui contar que finalmente tomei coragem pra largar o direito e ir estudar jornalismo. Depois da cirurgia eu decidi que nunca mais iria fazer nada que não me fizesse feliz. Aqui estou aos 26, no cursinho e super realizada por estar finalmente indo atrás de algo só meu.
A conclusão é que a vida é frágil demais pra gente se ocupar de coisas odiosas por causa dos outros. Meu conselho é: faça o que você quiser e foda-se os outros.

PS 2 * Nada me derruba mais nessa porra :D