10 de ago de 2016

Se você me acha estranha, leia isso

Eu morava em uma cidade chamada Guarapuava, bem na puta que pariu mesmo, lá no Paraná. Os invernos eram muito frios, a terra era vermelha, o vento gélido chegava a rachar a pele do rosto. Todo mundo meio que se conhecia, quantos sonhos eu comprei na padaria, quantas vezes fui a diversos lugares sozinha mesmo tendo só 8 anos. Naquele tempo eu não sabia o que era medo. Lembro de cada detalhe da minha casa, lugar que por vezes parecia ser grande demais pra mim, hoje prefiro morar em lugares pequenos para disfarçar a solidão. Enfim, depois que você mora em Guarapuava você deixa de se importar tanto com o frio. 
Eu lembro de ter uma toca do mickey que eu montava na área de casa, dentro do quarto, no meio da sala, só nunca consegui convencer minha vó a me deixar montar a toca no quintal e dormir lá fora. O quintal era cheio de moranguinhos frescos, tínhamos também um pé de pêssego que eu sempre tentava pegar com a vassoura quando os pêssegos não caiam no chão. Tínhamos de tudo, várias ervas (até hoje me pergunto se algum dia minha vó fumou alguma delas), temperos e outras coisas que minha vó usava pra fazer um xarope que era milagroso para aqueles resfriados fortes que derrubam a gente.
Eu tenho saudade.
Meu quarto era pra mim uma dimensão a parte deste planeta. Com minhas cobertas eu montava fortes indestrutíveis para viajar nas minhas histórias por horas e horas. Minha estante era abarrotada com uma coleção de surpresinhas de kinder ovo. Minha tv cor de rosa da xuxa (#meupassadomecondena) eu só ligava quando chegava da escola, nunca fui muito de passar horas na frente daquela coisa. Preferia ler meus livros, que sempre acabavam e eu tinha que esperar a próxima visita mensal da minha mãe pra ela trazer mais. A espera por essas visitas era inacabável e eu tenho a impressão de que duravam menos do que deveriam. Me acostumei com as despedidas constantes, as lágrimas já faziam parte da minha expressão facial. 
Eu não tenho saudade.
Entre frio e solidão, visitas breves, livros que acabavam rápido demais, colegas babacas na escola e dermatite atópica severa (aquelas de grudar o pano da roupa na ferida e ter que passar água pra conseguir soltar sem doer tanto), formou-se a  parte mais sólida da minha personalidade que até hoje permanece. Sou sonhadora pois vivi sozinha em meu mundinho maravilhoso pensando que um dia eu iria crescer e ir embora daquele lugar, um dia eu iria crescer e poder conquistar o mundo com a minha espada, lutar com dragões, salvar o dia, ser uma super heroína. Sou meio desconfiada porque tive que me despedir muitas vezes de quem mais amei. Sou meio alienada porque foi o único jeito que encontrei de escapar da realidade que me machuvava tanto. Eu sou assim porque vivi o que vivi. Só de lembrar, as quentes lágrimas desabam de meus olhos sem minha permissão. Ainda tem tanta coisa pra falar daquele lugar. Tantos mistérios, tantas mágoas que não se resolveram. Eu vivo escrevendo que gostaria de voltar no passado, fazer tudo diferente, mudar alguma coisa importante, vivo a me lamentar pelos momentos que já foram, mas esta é a única parte da minha vida para a qual eu não gostaria de voltar nunca mais.
A saudade existe pois apesar dos pesares eu fui feliz naquela terra. É confuso dentro de mim o sentimento ao lembrar, pois tem todas as partes boas que faziam a minha vida parecer um conto de fadas, e ao mesmo tempo tem partes pesadas que me fazem sentir pena de mim mesma. 
Ainda sinto o gosto do feijão e das frutas do pé. Ainda lembro da escola onde eu não tinha muitos amigos, do tio do ônibus escolar, do céu que escurecia tão rápido, da minha fantasia tão intocada pela maldade do mundo. Eu era tão inocente que chega a doer, queria voltar lá e me proteger, olhar pra mim e dizer que tudo vai ficar bem, que eu não precisava chorar. 
18 anos depois e eu ainda lembro como se fosse ontem, me pergunto se algum dia vou esquecer de algum detalhe daquela casa, daquela cidade, daquela vida tão alheia e distante da que tenho agora. Como posso não me lembrar o que comi ontem mas lembrar do cheiro da minha casa, da grama, das minhas árvores, de dormir quentinha em cima do peito da minha vó, das broncas por voltar pra dentro de casa suja de terra e água, dos esconderijos e segredos que continuarão sendo secretos eternamente.
Isso é tudo que eu trouxe da minha primeira infância naquele lugar, isso é tudo que sobrou. Deve ser o mais importante então espero nunca me esquecer de onde vim e porque sou exatamente do jeito que sou. 

Em 1999 eu fui embora.