18 de mai de 2016

Voltando para casa

As vezes a gente se joga na vida sem medo e sem medida. Andamos e andamos nessa estrada em busca do desconhecido. Muitos se encontram no meio do caminho e decidem fazer morada. Muitos voltam por medo de ultrapassar o obstáculo. Eu sou do tipo que foi além do que devia e por puro descuido perdeu o mapa, junto com celular, isqueiros e canetas BIC. Acredito que todos estão no mesmo lugar do universo. Um planeta inteiro só de isqueiros e canetas BIC perdidas por seres humanos descuidados. Enfim. Me perdi, não soube voltar, me desesperei e chorei. Amaldiçoei todos e tudo ao meu redor. Já não via mais flores em meu caminho. Os risos foram sumindo e a chuva parecia ser sempre seca. Até tentei voltar, mas toda vez acabava me perdendo mais ainda. Em um momento comecei a perder também a minha razão, logo depois a minha fé. Só sobraram sentimentos, os piores possíveis, somente aqueles que reagiam aos estímulos de dor e escuridão. Medo, ansiedade, vontade de correr pra longe, vontade de machucar tudo assim como tudo me machucou. Vingança. E enfim, desesperança no amanhã, que sempre que chegava trazia junto as piores notícias. Eu quis terminar a minha jornada, honestamente, o plano de como eu iria fazer isso foi o único motivo pelo qual eu continuei viva. Fiquei dias sem comer, passei dias dormindo e sonhando em nunca mais acordar. Fiquei noites inteiras escrevendo histórias que joguei no fogo. Deixei de me importar. 
Minha alma cansada e humilde pediu ajuda, qualquer ajuda. E ela veio. Seria coincidência? Sinto que não. Acho que depois de uma longa jornada extremamente física, minha alma pediu colo. Já não quero mais andar sozinha. Ela me deu a mão então, assim como tinha feito em 1995 em um quarto escuro de uma cidadezinha do interior. Ela me ajudou a acender a luz que por tanto tempo mantive apagada. O sentimento é familiar, o olhar não me é estranho. Começo então a lembrar de coisas que eu havia trancado nos armários empoeirados da minha mente, tinha certeza que um dia iria usar então não joguei fora, deixei ali reservadinho. Mas sabe quando você esquece? É como achar dinheiro no bolso de um casaco, talvez assim fique mais fácil de entender o sentimento que tento descrever. Desde então meus dias tem sido mais intensos, a experiência física se tornou minúscula diante da experiência da alma. Refiz minhas prioridades, colocando no topo da lista a minha certeza de que tudo isso é real, mesmo que os olhos não possam ver assim de cara. 
Com a luz acesa ficou muito mais fácil de achar o que eu estava procurando. As coisas que eu mais precisava estão aparecendo, se manifestando magicamente ao meu redor sem que eu tenha que mover um dedo. Os meus dias estão mais belos, mesmo com chuva, mesmo com vento. Não existe nada mais bonito do que observar o quanto a natureza ao nosso redor continua viva apesar da enorme violência que praticam contra ela todos os dias. Ela resiste e vive, e eu também. 
Não pretendo olhar pra trás. Não pretendo voltar aos dias longos caminhando numa estrada sem sentido. Agora caminho acompanhada, tenho essa certeza que vem do fundo da minha alma, uma voz que me guia e me lembra o tempo todo o quanto somos todos elementos relevantes de uma grande obra de arte. 
Que assim eu permaneça.
Voltar para casa nunca foi tão intenso.