19 de dez de 2016

Desabafo de uma garota extremamente sentimental

Já faz alguns dias que ando me sentindo meio mal. Talvez seja a falta de compreensão do mundo, as mensagens não respondidas, o vazio que insiste em ecoar o barulho do meu silêncio em todos os cantos das paredes do meu interior. Quem sabe eu tenha perdido tempo demais tentando me animar, tentando fingir ser alguém que não sou. Talvez eu devesse aceitar as dores sem fingir que elas não me machucam. Anseio em encontrar um pouco de dignidade quando sofro, mas é em vão. Eu me desespero, me descabelo, passo dias com a cabeça em outra dimensão, tudo isso pra tentar fingir que eu não me afeto com tanta falta de atenção. Eu só queria encontrar pessoas que fossem pelo menos um pouquinho como eu, nunca me senti tão sozinha como hoje. 
Eu tentei mudar. 
Eu sei que já errei desse mesmo jeito antes mas acho que não aprendi a lição. Eu tentei ser alguém que não sou e isso me machucou de novo. Eu posso até sair com milhares de pessoas, mas no final do dia, isso só me faz sentir mais sozinha ainda. Porque eu insisto em gastar meu tempo com pessoas que eu sei que vão me fazer chorar depois? Eu não tenho vergonha nenhuma de admitir que sinto e sofro intensamente porque sentimentos belos são motivos de orgulho pra mim. Eu sou o tipo de garota que se prende nos olhares, que valoriza os pequenos gestos, os toques, o tipo de garota que não sabe brincar de ignorar a pessoa por uma semana pra fazer ela sentir minha falta. Quando eu gosto eu quero demonstrar de todas as formas possíveis. Mas acho que eu tenho entregado meu coração pra qualquer um, achando que todo mundo é como eu. Na minha mente inocente eu acredito cegamente que tudo que eu li nos livros pode acontecer na vida real, por que não poderia afinal? Nossa vida não é a gente que escolhe? Porque eu escolheria ser uma pessoa fria que calcula tudo sendo que sou como chama ardente quando encontra o combustível certo? Por que eu sairia com um cara diferente por dia na semana sendo que eu quero apenas um? Eu estou cansada dessa forma superficial de se relacionar com os outros. Talvez o Tinder tenha normalizado o ato de tratar as pessoas como objetos em catálogos. E eu acreditei quando me disseram que eu deveria sempre arrumar um novo amor para esquecer o antigo. O resultado final é um desastre, só sobra você sozinha junto com a hipocrisia de fingir que ama quem você nunca poderia amar. 
No meio de todo esse conflito entre tentar ser quem não sou e tentar lidar com quem sou realmente eu acabo me perdendo. As vezes já nem sei mais o que é coisa da minha cabeça e o que não é. Eu queria ser menos sensível, menos intensa, queria amar menos, queria não me apaixonar por tudo que brilha, queria não querer tanto. Mas quando vejo as pessoas que são exatamente desse jeito que não sou, sinto pena. Ou talvez digna de pena seja aquela que se considera o último ser romântico do planeta, prestes a desistir definitivamente de acreditar em tanta fantasia.

Eu não procuro mais ninguém. Vou mergulhar em mim pra ver se encontro alguma coisa que me ajude a superar tantas perdas, tantos amores, tantos calores seguidos de chuvas imensas que demoram pra acabar. 

Eu só quero ficar sozinha.


14 de dez de 2016

As tragédias que acontecem quando se esquece o antidepressivo

De tempos em tempos eu esqueço de tomar meu remédio por alguns dias, não é de propósito, alguns vão dizer que é uma auto sabotagem inconsciente. Talvez seja. Só sei que acontece e quando me dou conta já estou em outro estado mental. É estranho perceber o quanto não tenho controle absoluto sobre as coisas que meu cérebro decide fazer. De repente começo a ficar mais sensível do que já sou para qualquer coisa, leio meus diários e começo a perceber apenas as injustiças e perdas de minha vida. É como se de repente eu esquecesse que há dois dias atrás eu me considerava a garota mais feliz do planeta. E assim, de repente, começo a acreditar que essa é a minha realidade e por alguns instantes, segundos que passam lentamente como horas em uma fila de espera sem fim, eu me permito sentir pena de mim. E quando isso acontece acaba toda a minha coragem de enfrentar qualquer coisa. Fico aflita e com medo de encarar o mundo, como se eu não tivesse o direito de ser tão feliz quanto os olhos que me despem a alma. Como se todo mundo pudesse ver exatamente quem sou sem que eu tivesse chances de me explicar, sem voz para me defender das acusações desse júri que me condena por crimes que não cometi. 
Começo a duvidar da minha sanidade mental!
Começo a duvidar de quem eu realmente sou: seria a minha personalidade verdadeira aquela com ou sem o efeito do antidepressivo? E por que? Por que não posso saber quem eu sou realmente, por que minha mente brinca comigo assim? Esses pensamentos me consomem em um eterno loop. Eu só queria que a roda parasse de girar, estou me sentindo tonta e as náuseas são inevitáveis. Me lembro que tudo isso talvez seja apenas o efeito da falta do remédio, corro para tomar o mais rápido possível. As náuseas aumentam mais ainda, as vezes não é possível manter no estômago o jantar que acabei de comer. Cuidar da mente as vezes tem esses efeitos colaterais. Mas nada tão grave quanto a vontade de me jogar do prédio mais alto da cidade. Me abraço e espero que o efeito da droga seja rápido. Fecho os olhos e busco em minha mente os meus melhores dias de sol, intercâmbios, amores, beijos na chuva, warped tours, cervejas, aquele menino do sotaque lindo que não sai da minha cabeça, meu gato, os amigos, festas, férias no rio, horas que passei boiando no mar e olhando pro céu sentindo que eu era parte essencial de toda a grandiosidade daquele azul infinito, eu era o oceano e o oceano inteiro cabia dentro de mim. Logo vem o sentimento de pertencer. As lágrimas de medo vão secando, medo de voltar para o abismo que a depressão é capaz de me colocar, um local escuro onde esperança não há! Respiro fundo e me concentro no que mais importa "estou viva" ! E com a gratidão por simplesmente respirar, junto com as memórias mais belas que um ser humano pode ter, eu me recomponho. Nem tão forte, mas nem tão fraca que eu não consiga me levantar sozinha. Estou acostumada a sair da lama sem ajuda de uma mão. Nunca mais duvido da minha força, força que aperta a faca na mão se for preciso pra conseguir se puxar pro alto, sempre, e me recuso a descer daqui. Só espero um dia entender quem realmente sou, não depender de um remédio pra conseguir viver normal. 
Depois que o pesadelo passa, me lembro da importância de nunca esquecer de tomar a porra do remédio, pode não ser o ideal agora, mas se é isso que eu preciso para ficar bem, que seja...
Eu só quero poder sorrir e ser a menina mais feliz desse mundo sem precisar de um comprimido pra me convencer disso. 




12 de dez de 2016

São Paulo, 25 de Novembro de 2016

Os amores de minha vida...

Chegam sem avisar e vão embora de repente, causando estranheza no meu coração adolescente. Vivo a procurar pedaços que restaram nas minhas lembranças, que há muito já não são tão confiáveis. Tento reviver os melhores momentos, tento agarrar cada detalhe para que nunca se perca. Gostar tanto de alguém me faz feliz. O que seria sem amar? O que seria sem amor? Que graça teria afinal? 
Acho que estou encontrando o tal do equilíbrio, já não corro atrás dos meus amores como fazia antigamente. Hoje eles surgem no meu caminho como belas supresas agradáveis e brevemente se vão de meu coração, pois ele é bem exigente e existem amores demais no mundo a me esperar. Quem sabe um dia eu encontre um que eu permita ficar. Talvez eu tenha achado, mas nem procurando eu estava. Quando vi já era tarde, já estava hipnotizada. Viciada na pele, no cheiro, no cabelo, no olhar. Encantada pelo jeito, pela voz, pela forma como ele fala. E ao mesmo tempo não me prendo, não me permito sofrer por esse desejo, hoje em dia só quero pra mim a melhor parte de amar. E quando se tem muitos amores, você aprende que o principal é o amor próprio. E é me amando que eu quero amar ele. E amar ele faz com que eu me ame mais. Essa leveza é tão rara que me faz querer continuar sem medo algum, sem pressa alguma, sem anseios, sem expectativas. Eu só quero ver ele e que todas as coisas que aconteçam nessa história me tragam mais e mais risos. E que bonito está o céu hoje, mesmo com chuva, fico pensando que a beleza da vida é saber que em algum lugar existe alguém como ele sorrindo o sorriso mais bonito que já vi. Em algum lugar existe ele e a sua existência por si só já é motivo pra mudar meu mundo pra melhor. 
Espero porque sei que com ele não preciso correr. Me permito apenas ser, pois com ele sei que não preciso me esconder. Me esconder por dentro, não mostrar meus lamentos, meus risos fáceis, meu jeito de menina que se recusa a crescer. Então eu escrevo na esperança de que o universo leve até ele essas palavras, ainda vazias, esse amor não existe afinal. Ainda. 


Estamos na mesma página. 





  

30 de nov de 2016

Meu vício

Nas palavras encontro meu consolo, meu eterno apoio sem o qual nada seria. Nas palavras encontro o único remédio capaz de sarar minhas feridas. Encontro a paz que tanto busco nos abraços breves e vazios, encontro o amor que tanto sonho nos dias mais frios. Queria eu ter outra forma de mostrar quem sou, me explicar, contar pro mundo que nem sempre penso aquilo que minha expressão demonstra. Minha cara de dúvida é sobre as mil coisas que ainda tenho que descobrir, é sobre achar algo engraçado e ter que guardar pra mim, nem todos possuem o mesmo humor, um humor que exige tão pouco para morrer de rir. Eu sou assim.
Encontro nas palavras o que busco na vida e na vida encontro palavras que definem minhas buscas. Me perco quando tento ser apenas comum e rasa, nunca serei. Sou bicho do mato, intensa, visceralmente alucinada por tudo aquilo que me traga um pouco de emoção. Meu vício por palavras fez de mim uma caçadora de aventuras, é só por isso que eu danço na chuva, corro para abraços que nunca experimentei, beijo lábios fingindo que me pertencem por uma vida e logo me despeço, mas nunca dizendo adeus, pois aventuras sempre deixam um gostinho de "quero mais". Deixo o vício me consumir. Tudo começa pelos sentidos: um sorriso quente, um olhar doce, uma voz macia. Mistura-se tudo dentro de uma onda de calafrios que percorrem minha espinha, lentamente, o frio na barriga que vem no mesmo momento em que ouso pensar naquilo que me tirou o chão e me deixou andando nas nuvens por dias. Tudo isso dentro de mim vira uma coisa engraçada que nem mesmo palavras poderiam explicar de forma compreensível. E como uma droga, de repente a brisa bate ! Meu cérebro grita de dor pois tanto sentimento sem fazer sentido me deixa meio tonta, minhas mãos formigam e anseiam pela tinta, pelo papel, por todo aquele ritual de exorcismo que é a escrita. Escrever é exorcizar meus piores demônios e transformá-los em belas poesias. As vezes exorcizo sentimentos bons falando sobre raiva, sentimentos ruins falando sobre o amor que tanto tentam me convencer que não existe. Eu sei que existe no mundo alguém que entenda exatamente como é essa sensação única, esse apego, esse desejo que necessita ser saciado sem demora. 
Mesmo depois que vomito todas as palavras do meu cérebro, as sensações e emoções continuam fluindo em minhas veias, fazendo de mim uma eterna máquina de palavras ambulante. 

Meus dedos ainda estão formigando... 


29 de nov de 2016

Rio de Janeiro, 13 de Novembro de 2016

Eu adiei transformar sentimentos em palavras porque tinha esperanças de que o sentimento fosse durar mais. Tinha medo de por no papel todas as lembranças e diminuir elas dentro de mim de alguma forma. E eu nunca quero esquecer, como poderia me permitir apagar da memória aquelas horas? Talvez eu estivesse tão brisada que tudo pareceu melhor do que realmente era. Ou talvez eu nunca tivesse sentido tantas coisas de uma só vez em nenhuma outra ocasião. A mistura de tudo que tinha naquelas quatro paredes fizeram algo inédito acontecer dentro mim. Não sei se era o toque, o cheiro, a textura, o sabor, o olhar, o calor, a chuva ou a voz. Não sei se foi o jeito ou a falta de jeito, o ritmo, o dia ou a situação. Algo diferente aconteceu. Eu tentei explicar pra mim várias vezes mas não tenho conclusão.
Talvez as melhores coisas da vida sejam assim, simplesmente indescritíveis. Fui pega de surpresa, logo eu que brinco de poesia com tudo que encontro pela estrada. Logo eu que brinco de fazer histórias que duram pra sempre inspiradas em minutos de convivência. Eu gosto de sonhar, me faz bem, me traz paz. Mas essa história não é uma invenção. Eu não posso estar ficando louca, alguma coisa de tudo aquilo deve ter sido real. Ou talvez minha sanidade já não é mais tão estável, talvez meus sentidos estejam aguçados em demasia, intensificando a agonia que é não ter o que eu quero ter agora.
Confesso que esperei o tempo passar, primeiro me permitindo sonhar com os momentos breves que tanto me inspiram. Depois me policiei a parar, sonhar demais estava me tirando da realidade, me impedindo de raciocinar. Eu era toda emoção, dos pés a cabeça somente os meus sentidos me guiavam, dia e noite pelas ruas tentando achar significado nas coisas mais banais. Depois comecei a sentir dor física por estar me reprimindo tanto, eu não consigo esconder dentro de mim quando tenho vontade de gritar pro mundo inteiro ouvir. Eu odeio ter que jogar o jogo. Eu odeio ter que esperar. Eu odeio não poder estar onde eu queria estar. 
Depois eu simplesmente aceitei, ou talvez esteja tentando me convencer a aceitar, me trazer de volta pra realidade, parar de sonhar tanto com aquilo que não depende de mim pra acontecer.
Talvez eu deva esquecer, simplesmente deixar ir, quem sabe o universo trás de volta..
Enquanto isso continuo aqui, quem sabe os ventos levem esses pensamentos loucos pra longe de mim. Quem sabe o tempo me tire a falta de juízo e me dê um pouco de sabedoria para aprender a esperar, aprender a entender, aprender a deixar ir aquilo que eu mais gostaria de segurar, mas que corre como água pelas minhas mãos.
Escrever tudo isso foi mais difícil do que eu pensava, e como eu temia mas no fundo ansiava, as lembranças estão ainda mais fortes depois dessas palavras.


14 de out de 2016

Ele não te merece

Eu tenho amigas de todas as idades, vivem em diferentes países e são peculiarmente encantadoras do seu próprio jeito. Cada uma tem um brilho intenso, uma força mágica que apenas quem é mulher entende. A gente se apoia e se admira de forma mútua. Pois bem, essa coisa toda da sororidade me faz enxergar muitas coisas que talvez elas não enxerguem. O que me deixa profundamente irritada é ver todas elas sofrendo por homens que não fazem idéia do tesouro que possuem. O que eu mais falo é "Ele não te merece". Mas e quando o jogo vira? E quando quem sofre sou eu e reclamo incansavelmente sobre o quanto eu gostaria que meu lance com aquele carinha desse certo? Reclamo das expectativas não correspondidas e do quanto eu queria que as coisas fossem diferentes para variar. Mas nesse momento elas conseguem me mostrar algo que eu não consigo ver tão bem quanto elas: ele não me merece !
Isso me traz inúmeros questionamentos internos. Quando vejo uma mulher linda, viajada, inteligente, profissionalmente bem sucedida, cheia de vida e de alegria pra dar e vender, chorando pelos cantos por um boy mais ou menos, isso me irrita profundamente. Como ela não consegue perceber o quanto ela é incrível demais para sofrer por um amor meio bosta? Por que ela não se enxerga do jeito que eu a enxergo? Ainda bem que temos umas as outras para nos lembrar daquilo que vivemos esquecendo, mas não deveríamos esquecer nunca ! Nosso valor é enorme, se olhe no espelho e tenha orgulho do que vê. Tenha orgulho da sua história, das suas vivências e nunca aceite menos do que você merece. 
Se alguém não te trata bem, você não deveria se sentir mal por isso, é até melhor que essa pessoa saia o quanto antes da sua vida, antes que ela possa ficar e causar mais estragos na sua auto estima. Se alguém não se importa, não te liga, não te segue quando você decide sair caminhando, então simplesmente continue caminhando sem olhar pra trás. Pode ter certeza que a vida te reservou coisa melhor, não se arrependa de ser extrema com pessoas que não sabem valorizar, pessoas que não sabem demonstrar intensidade e interesse. Elas simplesmente não merecem.
É fácil falar, eu sei bem disso. Pode parecer hipocrisia mas enquanto escrevo este texto tento me convencer com minhas próprias palavras. Até porque é fácil falar tudo isso pra uma amiga que está sofrendo. Eu vejo ela como tudo e o cara que ela gosta como um grande nada. Mas não é assim que ela se vê. Não é assim que ela vê ele. Envolvimento emocional é uma droga, temos que parar de entregar nossos melhores sentimentos para pessoas que não merecem eles. Temos que parar de ir atrás daquilo que é tão pouco pra nós. 
Se ao menos eu pudesse me enxergar da forma como elas me enxergam... Se ao menos elas pudessem se enxergar da forma como eu as enxergo... Mas continuaremos firmes e fortes. Enquanto houver uma amiga pra me lembrar do meu valor, nem tudo estará perdido.
Suporte suas amigas e nunca deixe elas esquecerem do valor enorme que possuem. Garotas podem cair com uma facilidade enorme, mas quando se unem para levantar, monumentos indestrutíveis são criados. 

#tamojunto
#girlpower


29 de set de 2016

Abrindo a alma

A vida tem passado de forma estranha, minha noção de tempo já não é a mesma. Tenho a impressão de que vários anos passaram mas o que aconteceu há anos atrás foi na verdade ontem. É que o sentimento ainda é o mesmo.
É que se eu fecho os olhos e penso no dia 24 de setembro eu me sinto com 21. E como tudo era diferente lá atrás! Meus sonhos pareciam tão grandes, minhas convicções eram tão rígidas e hoje sei que tudo nessa vida exige flexibilidade. A gente cresce e aprende a lidar com as situações com menos choro e mais bravura. Com menos drama e mais objetividade. Mas ainda assim, aquela mistura de cores, sons e cheiros me transportam para uma época que mesmo distante no passado, está mais presente do que nunca nos meus pensamentos. Queria poder controlar o que penso, controlar o que sinto, controlar o que desejo mas é em vão. Já tentei esquecer pessoas só que quanto mais eu penso em esquecer, mais eu lembro. E as lembranças chegam em grandes ondas, trazem junto tudo que tinha naquele lugar escuro que eu enterrei na alma pra não ter que ver. Traz os sorrisos que me deram de presente, os sonhos que nunca se realizaram, o amor que era tão simples e possível mesmo com um grande oceano separando duas almas. Tento dizer sem falar muito, gostaria de ser breve mas afinal, que diferença faz? Hoje o pensamento livre está em caos. Como pássaros soltos da gaiola pela primeira vez, eu me abro para dizer que nada posso controlar. Estou deixando a vida acontecer e que os ventos me levem para algum lugar bom e seguro. Um lugar onde eu finalmente possa descansar com a cabeça no travesseiro, dormir sem sonhos, sem pensamentos e sem lágrimas. Um lugar onde o passado não me faça tanta falta e eu consiga finalmente seguir em frente.
Eu sei que alguém em algum lugar sente o mesmo. Manifeste-se por favor, pois cansei de me sentir sozinha em pensamentos que, para a maioria, parece ser apenas papo de bar ou coisa de gente louca. Eu cansei de não ter quem entenda a sutileza das palavras que nunca disse. Cansei de sentir que talvez eu seja a única alma no universo que contempla o tempo ao mesmo tempo em que pede para que ele pare. Não é de hoje, eu sempre fui assim. 


Ser livre demais é um caminho solitário.



13 de set de 2016

Estou viva e respiro bem. Obrigada é pouco !

Ano passado eu levei o maior susto da minha vida.
Tinha acabado de voltar de um mês incrível de férias, conheci vários países novos, estava feliz, linda e ruiva cursando o terceiro ano de direito quando de repente fiquei doente e tive que fazer uma cirurgia. Acho que você nunca mais é a mesma pessoa depois de ter o corpo aberto em um hospital. Tem muito medo e ansiedade envolvidos para que você consiga simplesmente ficar normal. Mesmo depois de toda a experiência que tive, que começou em outubro de 2015 e dura até agora (pois as cicatrizes ainda não desapareceram) eu as vezes me esqueço de lembrar da importância de tudo que aprendi dentro do hospital. 
No hospital você vê gente na pior, bem pior que você. Mas isso não melhora o seu dia nenhum pouco. No hospital você vê gente que vive, gente que sobrevive e gente que morre. E não necessariamente uma morte física e sim uma morte mental. É triste ! Ninguém vai parar em um hospital porque quer, ninguém quer estar ali. E foram naqueles momentos que percebi o que eu tinha esquecido há tempos : ser grata pela vida! Eu acho uma pena que eu precise de tanto tapa na cara pra lembrar que eu tenho que agradecer por simplesmente respirar.
Parece bobo? Quando você acorda às 10:00 no dia seguinte de uma cirurgia que começou as 13:00 do dia anterior, sozinha em uma UTI escura, com os dois braços roxos e cheios de marcas, impossibilitada de respirar e se mexer sem sentir que estão enfiando uma faca no seu peito (literalmente enfiaram uma faca no meu peito), você deixa de achar a gratidão por simplesmente respirar uma coisa boba. Naqueles momentos eu senti toda a fragilidade do universo em mim. Eu só queria chorar e odiar tudo por eu estar ali. Eu queria estar em qualquer lugar, fazendo qualquer outra coisa, menos ali, rasgada, cheia de cicatrizes internas e externas... Como um evento de um dia pode mudar uma pessoa para sempre? Aquilo me mudou ! Na minha cabeça era como se eu tivesse pedido pra tudo aquilo acontecer. E eu lembrei que já pedi isso uma vez ... Uma vez quando eu estava tão deprimida que pensei que tudo que eu queria era estar em um hospital, pra não ter que fazer mais nada por mim, pra que alguém lutasse pela minha vida por mim, pois ela já não me tinha muito valor. Alguns meses depois eu estava lá, exatamente onde eu tinha pedido pra estar. Em um hospital, conectada em vários paranauês e precisando de ajuda para aprender a respirar de novo. Precisando de ajuda pra sentir vontade de viver. Precisando de ajuda pra ainda me achar bonita mesmo com dois tubos saindo de dentro do meu peito e um corte de 10 centímetros que doi até hoje. Eu gritava, chorava e a dor persistia. A dor me consumiu de todas as formas possíveis. A dor era tanta que nenhum analgésico parecia funcionar, nem uma bomba de morfina que me deixava totalmente drogada e me tirava toda a fome conseguia amenizar. Cada dia era uma vitória e eu fazia mais do que me era recomendado. Quando você fica dependente dos outros você começa a valorizar TODAS as pequenas coisas. Poder tomar banho sozinha foi delicioso. Conseguir levantar da cama sem ajuda me custava grandes esforços e muita dor, mas eu tentava e tentava até conseguir. Eu venci a dor, eu venci o medo, eu venci os erros que não me contaram, eu venci tudo que era pra dar errado e não deu. Foram oito dias de puro aprendizado dentro daquele lugar. Eu simplesmente precisava deixar isso aqui escrito, porque pretendo ler todos os dias pra não me esquecer . Eu não posso apagar de mim uma lição tão valiosa.
Essa cirurgia e todas as consequências dela me tornaram um ser humano mais frágil, por muitos meses eu precisei de cuidados. Eu não estava acostumada a depender de ninguém pra fazer nada pra mim, e ter que ser dependente, não ter minha liberdade por uma limitação física mesmo que temporária, me desconstruiu inteira, me destruiu e me tirou todas as convicções egoístas nas quais eu me apegava. Fiquei tão fraca e tão triste que achei que não ia mais sentir vontade de viver tão cedo. E ao mesmo tempo me sentia forte porém esgotada. Eu passei a minha vida inteira sendo forte, eu queria me permitir ser fraca, e acho que foi a primeira vez que me permiti sentir isso de fato. Não é estranho que minha depressão tenha piorado de uma forma tão cruel depois de tudo isso. E a onda de coisas ruins continuou por um bom tempo. Ainda estou me recuperando, estranho pensar que daqui a pouco completa um ano...
Sou um ser cheio de cicatrizes e tenho muito orgulho delas pois me lembram o quanto fui forte pra caralho. Jamais deixarei que me digam o contrário. Hoje respiro fundo e aliviada, a dor não está mais lá. Já não tenho um cisto de 5 centímetros bem no meio do meu peito, o pesadelo acabou. Quando lembro disso tudo e me percebo viva e bem, sinto uma gratidão tão grande pelo médico que fez com que tudo isso fosse possível. É um vínculo gigante que vou ter com esse ser humano pelo resto da minha vida. Não tem como apagar aquele rosto da memória. Só consigo me lembrar de quem esteve do meu lado, quem de alguma forma fez algo pra me apoiar. Por isso que sai daquele hospital cheia de amor mas também cheia de rancores pelas pessoas que eu esperei mas não apareceram nem pra dar um oi. Mas foi bom ! A vida peneirou meus contatos por mim. Hoje não faço questão de ser legal ou considerar nenhuma daquelas pessoas nas quais eu tinha tanta confiança e expectativa. Isso porque eu tenho uma família gigante e sabe quantos apareceram pra me dar um oi? Prefiro nem falar...
Hoje sou grata por respirar sem dor. Procuro valorizar cada gole de água que bebo, cada pedaço de comida que eu como, cada passo que ando e ando devagar, pois sinto que mereço aproveitar a paisagem da vida sem pressa. Chega de correr, chorar, sofrer... Depois de tantos episódios trágicos na minha vida, sinto que a parte boa deve estar chegando logo ali virando a página. Fico no aguardo. Vida, por favor me surpreenda com as melhores coisas que o universo pode me trazer, e saiba que eu sempre serei grata pelo pouco que tenho, afinal, aprendi minhas lições. Sei que não preciso de muito para sorrir. 

PS* Eu disse nesse post que um dia eu ainda viria aqui contar que finalmente tomei coragem pra largar o direito e ir estudar jornalismo. Depois da cirurgia eu decidi que nunca mais iria fazer nada que não me fizesse feliz. Aqui estou aos 26, no cursinho e super realizada por estar finalmente indo atrás de algo só meu.
A conclusão é que a vida é frágil demais pra gente se ocupar de coisas odiosas por causa dos outros. Meu conselho é: faça o que você quiser e foda-se os outros.

PS 2 * Nada me derruba mais nessa porra :D 



12 de set de 2016

Pensamento Livre

Eu queria me mostrar sem ter que dar nome aos bois. Queria poder falar tudo sem ser questionada por isso depois. Existe muito mais em mim do que eu ouso expor, muito mais do que eu ouso admitir. Mas acho que a vida é assim mesmo. Alguns segredos devem permanecer enterrados eternamente dentro da nossa alma, naquela parte mais profunda e inacessível. Quem sabe em uma outra vida eu consiga resolver essa pendência que me tira o sono. Talvez eu comece a falar em códigos, talvez eu apenas deixe de escrever de vez...
O que me mata é saber que eu posso, mas não estou apta a engolir as consequências. O que me destrói é a certeza de que existem poucas pessoas no mundo que me entenderiam sem julgar. 
Eu cresci muito esse ano, acho que finalmente estou deixando a garotinha pra trás. Hoje eu consigo aguentar qualquer facada com muito mais dignidade. Consigo até fingir que sou feliz se eu quiser. Mas ainda me parte o coração ter que decidir ser uma coisa só quando eu queria ser tudo. Vivo na corda bamba entre as duas versões da mesma pessoa. Uma delas é decidida, auto suficiente, forte e até meio cavala. Uma pessoa que vai atrás do objetivo e passa por cima do que tiver que passar pra alcançar. Fearless. 
A outra é sonhadora e tão romântica que chega a doer. Vive a vida de acordo com suas poesias. Rabisca o mundo com cores e sentimentos abstratos, segue a intuição ao máximo e acredita demais que tudo isso faz sentido. E não ouse acorda-la desse sonho. Ultraviolence.
Eu nem sei mais quem eu sou, porque cada dia vejo uma mulher diferente no relfexo do espelho. O que me incomodava ontem, hoje já nem sinto. Mas amanhã posso acordar achando que meu mundo vai acabar exatamente pelo mesmo motivo. Duas horas, uns cigarros e três músicas do The Story So Far depois e eu já sou outra pessoa. Uma inconstante eterna, um pássaro sem ninho. No fundo tenho orgulho disso. É legal não ser igual. 
Mas mudar demais também é estranho, viver dentro da minha mente faz cada vez menos sentido pra mim. As vezes é como se o mundo fosse explodir e as vezes é como se o universo inteiro tivesse feito o tempo parar de passar. 
Alguém se identifica com essa porra?
Alguém me diz que é normal sonhar cada dia com uma coisa diferente, me diz que é normal querer ficar inconsciente, me diz que é normal querer ser tudo e nada mas querer estar presente. 
Acho que muitos anos vão passar até que eu chegue a uma conclusão sobre mim .Talvez seja por isso que eu não goste muito de terapia. Como me explicar, como me entender se o universo inteiro vive em mim e eu não sou parcial em quase nada? 

Deixo os pensamentos livres voarem dentro de mim ....


2 de set de 2016

6 meses de veganismo, 6 meses LIVRE de dermatite atópica

Esperei todos estes meses passarem para que eu tivesse CERTEZA ABSOLUTA do que estou falando. Quem já leu outros textos daqui, sabe que eu tenho dermatite atópica desde que nasci, então já passei por muitos médicos, testei muitos cremes , tentei diversos tratamentos, vacinas, mudança de hábitos, enfim, aqui experiência é o que não falta. 
Hoje vou contar pra vocês sobre a mudança efetiva e duradoura que tenho notado na minha pele desde que parei de consumir alimentos de origem animal.
Depois de seis meses sem recaída alguma (parar de consumir algo que passaram a vida inteira te falando que era certo, não é fácil ) hoje anuncio orgulhosamente que sou totalmente vegana e sem pretensão alguma de voltar a consumir alimentos que venham de exploração animal. Pode parecer absurdo para algumas pessoas, eu mesma já pensei em veganos como pessoas extremistas e radicais e eu não poderia estar mais enganada.
O veganismo foi o pilar essencial para a cura da minha pele. Como eu gostaria de ter tido essa opção logo ao nascer. É tão absurdo que eu tenha sido obrigada a comer carnes e beber leite de outro mamífero sem ser minha mãe sendo tão pequena para escolher por mim mesma! Eu acredito muito que minha história poderia ter sido diferente se eu tivesse tido uma infância vegana. Mas ok, também tenho certeza que se minha família soubesse o quão prejudicial essa cultura seria para minha saúde, eles jamais teriam me forçado a comer cadáveres e secreções. Não é surpresa para ninguém de onde vem a carne, o leite e os ovos,  e se for, recomendo veementemente que vocês assistam isso .
A mudança não ocorre do dia para a noite, tem que ter paciência (nós atópicos temos que aprender o que é essa tal de paciência nem que seja na marra, não é mesmo?). Mudar hábitos não é fácil mas é possível e recompensador. Você começa a amar o veganismo quando percebe que sua pele que sempre foi instável, permanece lisa e limpa por vários e vários dias. E então os dias viram semanas e as minhas semanas viraram seis meses sem saber o que é ter dermatite. Se você sofre com esse problema, não vou desperdiçar palavras tentando explicar o tamanho da minha felicidade, você deve imaginar o tamanho do meu alívio, alegria e orgulho de ter conseguido vencer essa doença.
Eu queria dizer que abrir a mente é preciso. Muitos médicos me disseram várias vezes que atópicos são mais sensíveis e "inteligentes" por natureza, tenho certeza que vocês não vão me julgar por estar compartilhando essa informação com vocês sem nenhum tipo de maquiagem pra cobrir o quanto a indústria é nojenta e cruel com os animais. Cada vez que você se alimenta de carne, leite e ovos, você está ingerindo HORMÔNIOS, CRUELDADE E MEDO. Sim, porque nenhum animal gosta de morrer pra virar comida. Nenhuma vaca gosta de engravidar por várias vezes seguidas e ser separada do seu filhote, o qual não beberá nenhuma gota do leite que era para ser dele, para que humanos continuem uma exploração degradante para nós, para o planeta e principalmente para seres inocentes que nós deveríamos proteger. Não espere que essa droga faça bem pra sua pele. Tudo isso é desnecessário e prejudicial para TODO MUNDO. 
A mudança é lenta, as consequências aparecem gradualmente com o tempo, meu corpo precisou se desintoxicar dos anos que eu passei comendo lixo (não considero mais nada que venha de animal como comida), mas a mudança não é temporária, ela é efetiva e eu sou a prova. Hoje sou uma vegana orgulhosamente feliz e encho a boca pra gritar pra todo mundo ouvir : O VEGANISMO CUROU MINHA DERMATITE ATÓPICA ! 

Beijos e boa sorte para os meus amigos de luta contra a dermatite <3 


10 de ago de 2016

Se você me acha estranha, leia isso

Eu morava em uma cidade chamada Guarapuava, bem na puta que pariu mesmo, lá no Paraná. Os invernos eram muito frios, a terra era vermelha, o vento gélido chegava a rachar a pele do rosto. Todo mundo meio que se conhecia, quantos sonhos eu comprei na padaria, quantas vezes fui a diversos lugares sozinha mesmo tendo só 8 anos. Naquele tempo eu não sabia o que era medo. Lembro de cada detalhe da minha casa, lugar que por vezes parecia ser grande demais pra mim, hoje prefiro morar em lugares pequenos para disfarçar a solidão. Enfim, depois que você mora em Guarapuava você deixa de se importar tanto com o frio. 
Eu lembro de ter uma toca do mickey que eu montava na área de casa, dentro do quarto, no meio da sala, só nunca consegui convencer minha vó a me deixar montar a toca no quintal e dormir lá fora. O quintal era cheio de moranguinhos frescos, tínhamos também um pé de pêssego que eu sempre tentava pegar com a vassoura quando os pêssegos não caiam no chão. Tínhamos de tudo, várias ervas (até hoje me pergunto se algum dia minha vó fumou alguma delas), temperos e outras coisas que minha vó usava pra fazer um xarope que era milagroso para aqueles resfriados fortes que derrubam a gente.
Eu tenho saudade.
Meu quarto era pra mim uma dimensão a parte deste planeta. Com minhas cobertas eu montava fortes indestrutíveis para viajar nas minhas histórias por horas e horas. Minha estante era abarrotada com uma coleção de surpresinhas de kinder ovo. Minha tv cor de rosa da xuxa (#meupassadomecondena) eu só ligava quando chegava da escola, nunca fui muito de passar horas na frente daquela coisa. Preferia ler meus livros, que sempre acabavam e eu tinha que esperar a próxima visita mensal da minha mãe pra ela trazer mais. A espera por essas visitas era inacabável e eu tenho a impressão de que duravam menos do que deveriam. Me acostumei com as despedidas constantes, as lágrimas já faziam parte da minha expressão facial. 
Eu não tenho saudade.
Entre frio e solidão, visitas breves, livros que acabavam rápido demais, colegas babacas na escola e dermatite atópica severa (aquelas de grudar o pano da roupa na ferida e ter que passar água pra conseguir soltar sem doer tanto), formou-se a  parte mais sólida da minha personalidade que até hoje permanece. Sou sonhadora pois vivi sozinha em meu mundinho maravilhoso pensando que um dia eu iria crescer e ir embora daquele lugar, um dia eu iria crescer e poder conquistar o mundo com a minha espada, lutar com dragões, salvar o dia, ser uma super heroína. Sou meio desconfiada porque tive que me despedir muitas vezes de quem mais amei. Sou meio alienada porque foi o único jeito que encontrei de escapar da realidade que me machuvava tanto. Eu sou assim porque vivi o que vivi. Só de lembrar, as quentes lágrimas desabam de meus olhos sem minha permissão. Ainda tem tanta coisa pra falar daquele lugar. Tantos mistérios, tantas mágoas que não se resolveram. Eu vivo escrevendo que gostaria de voltar no passado, fazer tudo diferente, mudar alguma coisa importante, vivo a me lamentar pelos momentos que já foram, mas esta é a única parte da minha vida para a qual eu não gostaria de voltar nunca mais.
A saudade existe pois apesar dos pesares eu fui feliz naquela terra. É confuso dentro de mim o sentimento ao lembrar, pois tem todas as partes boas que faziam a minha vida parecer um conto de fadas, e ao mesmo tempo tem partes pesadas que me fazem sentir pena de mim mesma. 
Ainda sinto o gosto do feijão e das frutas do pé. Ainda lembro da escola onde eu não tinha muitos amigos, do tio do ônibus escolar, do céu que escurecia tão rápido, da minha fantasia tão intocada pela maldade do mundo. Eu era tão inocente que chega a doer, queria voltar lá e me proteger, olhar pra mim e dizer que tudo vai ficar bem, que eu não precisava chorar. 
18 anos depois e eu ainda lembro como se fosse ontem, me pergunto se algum dia vou esquecer de algum detalhe daquela casa, daquela cidade, daquela vida tão alheia e distante da que tenho agora. Como posso não me lembrar o que comi ontem mas lembrar do cheiro da minha casa, da grama, das minhas árvores, de dormir quentinha em cima do peito da minha vó, das broncas por voltar pra dentro de casa suja de terra e água, dos esconderijos e segredos que continuarão sendo secretos eternamente.
Isso é tudo que eu trouxe da minha primeira infância naquele lugar, isso é tudo que sobrou. Deve ser o mais importante então espero nunca me esquecer de onde vim e porque sou exatamente do jeito que sou. 

Em 1999 eu fui embora.


9 de ago de 2016

2006 - 2016

Se eu soubesse quem você era, eu voltaria no dia e horário exatos em que a gente se conheceu, pra marcar para sempre que naquele instante eu estava encontrando a minha metadezinha nessa vida. Não consigo acreditar que deixamos o tempo nos tirar da mesma calçada. Não consigo acreditar que sofremos tanto sozinhas, cada uma em uma parte da cidade. Não consigo acreditar que passamos por tudo que passamos sem ter o apoio uma da outra. Não mais !
Lembro que antes de nos perdermos, vivemos histórias lindas e intensas, motivo pelo qual o nosso reencontro foi mais do que especial. Você fez parte da época mais legal da minha vida, você esteve comigo nas minhas primeiras descobertas, nas minhas paixões que eu jurei que iria morrer mas sobrevivi, nas noites viradas, nos roles miados, nas tardes no ibira, na galeria, nas noites no bocage, no perigo e em casa. A gente viveu coisa pra caralho, é realmente incrível olhar pra trás e reviver todos esses momentos. Mas a gente teve que crescer e eu sinto muito por isso. Nossa inocência e fé no mundo mudou muito depois de todos estes anos não é mesmo? Mas independente de todo o tempo que passamos separadas, de todas as lutas que tivemos que aguentar sozinhas, de todos os monstros que tentaram nos derrubar, estamos aqui. E agora estamos juntas de novo, e se depender de mim continuaremos assim. Me parte o coração saber que eu não pude estar com você quando você mais precisou, e que você não pode estar comigo quando eu mais precisei, causando em nós uma ilusão de que o mundo é um lugar frio e cruel. Isso nos fez pensar que não tínhamos amigos no mundo e enfim acabamos por esquecer o que significa amizade. Achar você trouxe pro meu mundo uma cor que fazia tempo que eu não via. Me fez lembrar o quanto é legal ter alguém pra falar tudo sem ter medo de ser julgada. Me fez lembrar o quanto é foda confiar tanto em alguém a ponto de compartilhar meus segredos mais obscuros e saber que eles estarão guardados mesmo sob tortura. 
Eu nunca mais vou deixar você ir embora, estou gostando muito de ter você de volta. O mundo realmente se torna mais suportável quando você tem uma melhor amiga pra contar os babados. A vida fica até mais leve, as desgraças ficam mais de boas e toleráveis porque agora já não andamos mais sozinhas. 
O engraçado é perceber que tudo mudou mas o essencial permaneceu imutável. Hoje somos adultas (quando a gente quer), temos nossos horários e compromissos, não dá mais pra ficar matando aula e vadiando pelo centro enquanto bebemos vinho de R$ 2,00. Uma pena. Agora que temos dinheiro e somos maiores de idade é dificil encontrar o tal do tempo. E mesmo assim, quando a gente se encontra tenho a impressão de que perdemos os nossos limites. Não sei quem fala e se empolga mais, se sou eu ou você. As vezes parece que estou falando comigo mesma porque temos ideias muito parecidas, e eu consigo entender perfeitamente as suas mudanças de humor e idéias justamente porque sou igual. Nem adianta tentar explicar isso para as pessoas normais, ninguém iria entender. Eu tenho tantas coisas pra falar sobre a gente que daria um livro. Mas o mais importante é o nosso presente. E eu prometo pra você mais uma vez que nunca mais vamos ficar sozinhas nesse mundo, não enquanto tivermos uma a outra. Daqui pra frente é eu e você de novo, independente de qualquer coisa.
Acho que você faz idéia do quanto é importante pra mim ter você de volta na minha vida. Nós vamos nos ajudar, nós vamos cuidar uma da outra e nada vai separar a gente de novo. Que assim seja.
Eu te amo muito e espero que eu só veja você fazendo sucesso e tendo alegria e tudo que há de melhor nesse mundo, não por você ser minha amiga mas porque você realmente merece tudo isso, nunca deixe ninguém te dizer o contrário. E se alguém disser, já me avisa quem é o babaca que eu resolvo. 
Ainda temos muito pra caminhar, nossa história começou há 10 anos atrás, já não somos um livro novo e em branco. Agora é hora da grande virada, o início de um novo capítulo, a parte em que a história fica boa mesmo. A gente ainda vai ser muito feliz nessa vida minha pequena, eu prometo <3




2 de ago de 2016

Me desculpe, eu preciso ir agora

To me sentindo estranha, ultimamente os sentimentos e sensações da minha vida tem se repetido. É como se eu tivesse voltado no tempo e tudo estivesse acontecendo de novo só que diferente.
Tenho me sentido presa, como se eu tivesse que escolher apenas uma coisa pra ser feliz. Tenho me sentido pequena, como se o mundo fosse grande demais. Só queria dar uma pausa, ter mais tempo pra mim. Só queria olhar uns lugares bonitos, ter tempo para os meus livros, dar e receber mais sorrisos e sentir saudade de um jeito tão forte que mudaria toda a minha forma de pensar. Eu já andei muito por aí, estar quietinha no meu canto me fez bem. Fiquei assim por 4 anos mas agora eu cansei. 
Durante todos esses anos eu tive medo, tentei construir pontes que nada tinham a ver comigo. Como eu me arrependo de ter errado logo nesse ponto, logo eu que sempre fui tão livre e decidida. Olhar pra mim, para as decisões que tomei, para o rumo que escolhi seguir, as vezes me causa arrependimento. Tudo bem, eu sei que fiz o que achei que fosse certo naquele momento, mas é como se nesses 4 anos eu tivesse sido outra pessoa. Minha vida está toda dividida em episódios, neste momento me sinto exatamente como eu me sentia em 2011. Eu quero sair pra explorar o mundo! A faculdade, o trabalho, a família, os amigos, tudo isso pode esperar, afinal, o que realmente importa é o que me faz feliz não é?
Pode parecer egoísta, na real é bem egoísta mesmo. Não vou mentir, eu tenho minhas raízes, sempre foram poucas mas tenho. Eu amo pessoas e seres que só de pensar neles já me dá uma saudade imensa. Mas será que devemos deixar de fazer o que a gente quer pelas pessoas que amamos? A gente nasce e morre sozinho, as pessoas e os animais que encontramos na estrada são companheiros mas cada um tem a sua jornada. Eu queria poder levar todo mundo que eu amo junto comigo sempre, mas já que não dá, vou sozinha, mesmo com o coração sangrando. No fundo acho que gosto. Estar longe de tudo e todos me faz sentir mais viva. To precisando tanto dessas sensações agora...
Quero pegar o avião e partir sem olhar pra trás. Quero ir e chorar de saudades da minha comida, do meu gato, do meu namorado, da minha terra. Quero ir e construir mais memórias inesquecíveis, conhecer mais lugares incríveis e sentir tudo da forma mais bruta que existe. Eu gosto disso. Viver é isso. 
Por que ficar?
Por que se forçar tanto, levar tudo tão a sério, levar a vida de forma tão rígida? O bom é ser flexível, sair na estrada e pegar carona até chegar no mar. Abrir a janela e sentir o vento no rosto, virar melhor amiga de um estranho, comer a comida mais barata e mais gostosa depois de uma longa viagem. Pra que ficar aqui e ver os meus melhores anos indo embora enquanto eu fico velha? Pra que ficar se eu tenho a oportunidade de partir? Quantas pessoas gostariam de ter essa oportunidade mas não tem? Eu mesma me convenci durante todos esses anos de que eu não poderia mais me permitir sair por aí assim. Ficar um ano fora parece loucura para aqueles que estão acostumados a seguir os padrões : terminar a escola, entrar na faculdade, conseguir um bom emprego e viajar nas férias. De preferência casar e ter uma vida estável. Mas essa vida só me parece atraente pra quando eu tiver uns 50 anos. Eu só tenho 26 ! Eu quero viver, respirar, carimbar a porra inteira do passaporte nos lugares mais inusitados deste planeta. Eu quero ir, quero ir e não olhar pra trás. Eu preciso tanto disso que se eu não for é capaz que eu acabe me sufocando nos meus sonhos. Sonhos podem te fazer a pessoa mais feliz do mundo e ao mesmo tempo te destruir da forma mais dolorosa. Estamos vivos pra sonhar e realizar. Quem só sonha, não vive. Realizar é preciso.
Um dia a vida acaba e você olha pra trás e percebe que não fez nem metade do que desejava. Passou a vida inteira arrumando desculpas pra não ir, pra não fazer, deixando pra amanhã todas as coisas que poderiam ter feito você sorrir... Uma pena. Eu não quero viver assim.
Me desculpe,  eu preciso ir embora.
Mas prometo que eu volto alguma hora.
Pra começar tudo de novo, me entediar e querer fugir outra vez.
Eu achei que tinha passado essa fase mas o sentimento voltou com força total. Eu só preciso ir e não olhar o que estou deixando. Preciso ir logo antes que me arrependa. Preciso ir antes que não tenha mais tempo. 
Espero que me entenda, eu sou um pássaro que passou tempo demais no ninho, agora eu só preciso voar. 

O céu me chama, vem comigo ou me deixe livre pra explorar a imensidão desse azul infinito. 

Um dia eu volto.

29 de jul de 2016

Olha pro céu agora


Abre a janela e veja o seu céu de noite. Nem te perguntei se hoje tem lua e estrelas, nem te perguntei se hoje está nublado. Aqui o céu está azul. Mesmo assim estamos debaixo do mesmo céu. Estamos longe mas estamos perto, você consegue sentir? Você consegue sentir quando te dou meu abraço? Você consegue sentir todo o amor que eu envio pra você? A sua dor é a minha, a sua luta é a minha, então hoje um pedaço de mim também foi violado. Um pedaço de mim também sente culpa e confusão. Um pedaço de mim também quer apagar tudo que aconteceu mesmo sabendo que é impossível apagar nosso passado. Mas não to aqui pra isso. To aqui pra te contar que a gente vai conseguir sair dessa juntas ok? Os dias vão passar e vamos continuar lutando, lutando pra sempre sermos melhores do que ontem. Vamos continuar caminhando para ganharmos sabedoria com as nossas experiências. Vamos continuar correndo, para ficar cada vez mais longe do passado e de todas as coisas ruins que não podemos mudar. As vezes a maré de má sorte bate na porta e sem querer a gente atende, quando menos percebemos ela já está dentro de casa bagunçando tudo. Mas a gente encontra e manda ela sair. Não pode ter espaço na nossa vida pra nada que não nos faça bem. Tragédias acontecem todos os dias não é? Mas coisas boas também acontecem aos montes, só que acho que estamos mais acostumadas a dar relevância para os problemas e ignorar as coisas boas. Vamos por um minuto esquecer tudo de ruim que aconteceu essa semana e pensar nas coisas boas?
Vamos apertar o pause na sofrência e dar um sorriso? Vamos por uma música alegre que nos faça sentir vontade de dançar? A gente tá viva, somos jovens e lindas, temos a vida toda pela frente, vamos sorrir juntas de novo?
O passado e o futuro são dimensões distintas, neste exato momento nada que aconteceu ou vai acontecer pode te atingir. Nesse momento, o que você tem é a opção de sorrir. E que esse pequeno sorriso, mesmo que forçado, mesmo que com lágrimas, seja o início de um recomeço. Que este seja o primeiro sorriso dos milhares de outros que virão. Neste momento agradeça por estar viva e respirando, por ter um teto em cima da sua cabeça, por ter condições de viver com dignidade, é muito mais do que muitos possuem. A gente não pode deixar que os baixos da vida superem os nossos altos. E se nossa sorte é a gente quem faz, vamos sorrir e agradecer todos os dias. Ainda temos muitos mares pra navegar, muitos países pra conhecer, muitos amores pra amar. TEMOS TANTA VIDA PRA VIVER ! Eu quero que hoje você não pense em olhar pra trás, apenas pra frente. Deixa pra sofrer amanhã, quem sabe esse amanhã nunca chegue. Adia a sua infelicidade pra outro dia, porque a alegria precisa de espaço pra entrar. 
Ainda quero abraçar você e te dizer o quanto você é linda e especial. O quanto você é uma mulher corajosa e batalhadora. O quanto você é um exemplo pra mim. Ainda quero te dizer que você vai superar qualquer coisa que aconteça na sua vida, porque a gente tá aqui pra superar, vencer e aprender. Nem chegamos na metade da nossa vida ainda, nunca seremos tão jovens quanto hoje. Então, apenas hoje, se permita ver todas as cores da vida e deleta o preto e branco. Hoje a respiração tem que ser leve, a comida tem que ser farta e a música tem que ser boa. Logo logo estaremos em outros carnavais, felizes, com histórias novas e com motivos pra sorrir aos montes. 
Queria transmitir pelo menos um pouco do meu carinho nessas palavras, não sei se consegui. Mas espero sinceramente que você saiba que você nunca estará sozinha nessa vida enquanto eu estiver viva.

Nós por nós. 


26 de jul de 2016

Me perdoa?

Hoje eu só queria me redimir e pedir desculpas por todos os erros cometidos. Queria tanto que me perdoasse por ter colocado um peso enorme nas suas costas quando você já não podia mais aguentar nem o peso de uma pena... Me desculpe por não acreditar em você o suficiente, por achar que você nunca faz nada direito e só vive para errar. Me perdoa por muitas vezes enxergar apenas teus defeitos e esquecer que tem diversas qualidades também. Me perdoa por achar que suas vitórias foram fáceis e principalmente me perdoa por diminuir as suas dores como se não fossem nada. Eu vi você vencendo tantos obstáculos mas nunca parei para olhar o tamanho da sua coragem. Eu vi você amando tantos amores, conhecendo tantos lugares e as vezes vivendo a vida de forma tão intensa que me esqueci de olhar para sua parte mais importante: sua alma. 
E que alma bela você tem, é difícil ainda admitir mas SIM, sua alma é bela. Me desculpe por achar que você é tão diferente de todo mundo que não merece atenção. Me desculpe por te colocar pra baixo nos momentos em que você mais precisa da minha força. Me perdoa por errar tanto com você ! Consigo perceber isso de forma tão clara agora que chega a doer. Queria que você me perdoasse por eu não ter te dado o que precisava quando você mais precisou, por ter escondido suas lágrimas debaixo do pano pra que ninguém pudesse ver sua fragilidade. Você não merecia isso. Eu deveria ter deixado que o mundo te ajudasse já que eu pouco podia fazer. Eu deveria ter feito melhor por você! Eu te fiz chorar, quanto sangue da tua pele eu arranquei? Eu te prendi, te isolei do mundo inteiro pelos meus motivos mais estúpidos e egoístas. Mas hoje te liberto, te deixo voar. Prometo nunca mais te machucar. Prometo que vou me esforçar pra ser o que você precisa que eu seja, que vou te alimentar com as cores certas, aquelas que a sua alma mais precisa pra renascer das cinzas que transformei sua vida. Eu prometo que farei melhor, farei tão melhor que pretendo nunca mais ter que me desculpar com você de novo.
Vanessa Guimarães é para você que eu devo minhas mais sinceras desculpas.

 Vamos recomeçar?

18 de mai de 2016

Voltando para casa

As vezes a gente se joga na vida sem medo e sem medida. Andamos e andamos nessa estrada em busca do desconhecido. Muitos se encontram no meio do caminho e decidem fazer morada. Muitos voltam por medo de ultrapassar o obstáculo. Eu sou do tipo que foi além do que devia e por puro descuido perdeu o mapa, junto com celular, isqueiros e canetas BIC. Acredito que todos estão no mesmo lugar do universo. Um planeta inteiro só de isqueiros e canetas BIC perdidas por seres humanos descuidados. Enfim. Me perdi, não soube voltar, me desesperei e chorei. Amaldiçoei todos e tudo ao meu redor. Já não via mais flores em meu caminho. Os risos foram sumindo e a chuva parecia ser sempre seca. Até tentei voltar, mas toda vez acabava me perdendo mais ainda. Em um momento comecei a perder também a minha razão, logo depois a minha fé. Só sobraram sentimentos, os piores possíveis, somente aqueles que reagiam aos estímulos de dor e escuridão. Medo, ansiedade, vontade de correr pra longe, vontade de machucar tudo assim como tudo me machucou. Vingança. E enfim, desesperança no amanhã, que sempre que chegava trazia junto as piores notícias. Eu quis terminar a minha jornada, honestamente, o plano de como eu iria fazer isso foi o único motivo pelo qual eu continuei viva. Fiquei dias sem comer, passei dias dormindo e sonhando em nunca mais acordar. Fiquei noites inteiras escrevendo histórias que joguei no fogo. Deixei de me importar. 
Minha alma cansada e humilde pediu ajuda, qualquer ajuda. E ela veio. Seria coincidência? Sinto que não. Acho que depois de uma longa jornada extremamente física, minha alma pediu colo. Já não quero mais andar sozinha. Ela me deu a mão então, assim como tinha feito em 1995 em um quarto escuro de uma cidadezinha do interior. Ela me ajudou a acender a luz que por tanto tempo mantive apagada. O sentimento é familiar, o olhar não me é estranho. Começo então a lembrar de coisas que eu havia trancado nos armários empoeirados da minha mente, tinha certeza que um dia iria usar então não joguei fora, deixei ali reservadinho. Mas sabe quando você esquece? É como achar dinheiro no bolso de um casaco, talvez assim fique mais fácil de entender o sentimento que tento descrever. Desde então meus dias tem sido mais intensos, a experiência física se tornou minúscula diante da experiência da alma. Refiz minhas prioridades, colocando no topo da lista a minha certeza de que tudo isso é real, mesmo que os olhos não possam ver assim de cara. 
Com a luz acesa ficou muito mais fácil de achar o que eu estava procurando. As coisas que eu mais precisava estão aparecendo, se manifestando magicamente ao meu redor sem que eu tenha que mover um dedo. Os meus dias estão mais belos, mesmo com chuva, mesmo com vento. Não existe nada mais bonito do que observar o quanto a natureza ao nosso redor continua viva apesar da enorme violência que praticam contra ela todos os dias. Ela resiste e vive, e eu também. 
Não pretendo olhar pra trás. Não pretendo voltar aos dias longos caminhando numa estrada sem sentido. Agora caminho acompanhada, tenho essa certeza que vem do fundo da minha alma, uma voz que me guia e me lembra o tempo todo o quanto somos todos elementos relevantes de uma grande obra de arte. 
Que assim eu permaneça.
Voltar para casa nunca foi tão intenso. 

12 de mai de 2016

Perturbador

Tenho muita dificuldade em escrever sobre como me sinto em relação ao que nunca aconteceu. Olha que bicho estranho, nem posso reclamar se me chamam de louca. O que mais me incomoda é não saber se eu estaria feliz se tivesse escolhido outros caminhos. É tão estranho perceber onde estou agora, de repente tudo é meio desconexo e sem sentido. De qualquer forma, sei que estou onde deveria estar. Mas e se ?
E se eu tivesse ficado e nunca mais voltado?
E se aquela oportunidade tivesse vingado?
E se aquele amor não tivesse acabado?
E se?
Vivo a me perguntar... E tais questões não me deixam dormir as vezes. 
Perturbador.
Engraçado, porque se eu tivesse ido por outro caminho, eu não estaria escrevendo isso aqui e agora. Seria outra versão de mim, com outros sentimentos e problemas diversos dos atuais. 
Muito perturbador.
Como vocês conseguem lidar com isso? 
E aquela vontade louca de largar tudo e ir embora? Alguém se identifica?
E aquele desespero por aventura, aquele instinto animalesco que fazia eu me jogar em todas as situações de alma e coração? Onde foi parar? Será que eu morri e não percebi?
Extremamente perturbador.
Como vocês lidam com isso?
As vezes penso em ficar, eu já pensava nisso há 4 anos atrás, mas pensava em ficar como quem pensa em sentar para tomar um café rápido e depois ir embora. Não fazia parte dos meus planos me tornar quem me tornei. 
Perturbador.
Percebi que a vida é uma estrada sem retorno e sem saídas, uma vez que você escolhe um caminho, você nunca mais consegue voltar pra escolher outro. Sempre nos deparamos com bifurcações, tudo bem pensar nas escolhas futuras, mas e as passadas? Como lidar com a curiosidade de saber o que tinha naquela outra estrada?
Perturbador.
Eu precisava colocar isso em palavras e o fiz da forma mais estranha possível, mas talvez essa seja a tradução literal e exata de como eu me sinto. Não faz muito sentido não é mesmo? Bem vindo ao meu mundo, tudo aqui dentro é assim meio fora de lugar. As vezes as cenas são coloridas demais e de repente tudo fica cinza. 
Lembro-me de quem eu era como quem lembro de uma velha conhecida. O meu eu de alguns anos atrás JAMAIS sairia comigo. No mínimo, me acharia chata e covarde. Previsível. Sem charme. E o meu eu de agora jamais sairia com o meu eu de antes, no mínimo me achava muito atirada, sem receios, muito descuidada, sem medo. 
Quem poderá me dizer qual das duas é melhor?
Quem eu quero ser?
Será que estou fazendo as coisas do jeito certo?
Perturbador.

2012

São acontecimentos como este que são capazes de trazer nossa atenção ao centro da nossa alma, desviamos nosso olhar desta região misteriosa e um tanto quanto obscura para a nossa visão limitada, nossa percepção alterada pelas chamas do nosso ego voltado para o materialismo fútil e sutil. E é então que paramos de perceber os sons dos carros e as vozes das pessoas e qualquer barulho externo, e neste momento de tensão e confusão, neste momento raro em que nossa consciência ouve o seu subconsciente falando , e você pode entender o que ele diz, e este entendimento causa dor, por que ele não deveria ser entendido, não deveria estar tão exposto, ele foi enterrado, recalcado ali para o seu próprio bem. Mas as vezes acontece, algum dia em sua jornada você irá sentir isso e entender do que eu estou falando e a qual voz eu me refiro. É a voz da sua própria alma, te dizendo o que você esqueceu de lembrar, te lembrando o que você esqueceu de fazer, tentando despertar em você o seu verdadeiro eu, que foi reprimido pelas coisas exteriores. Você se corrompeu, deixou de ser bom e puro , quantas lições você já se esqueceu ? Quantas vezes deixou de ouvir, se omitiu e omitiu, mentiu e enganou a si mesmo e aos outros? São momentos como este em que o seu verdadeiro eu tem voz , e esta casca, este lixo corrompido que você se tornou pode ouvir, mas não reprima a voz que diz que você ainda pode ser tudo aquilo que você tinha a pura e verdadeira intenção de ser. A verdade pode causar uma tontura e uma leve confusão, não chega a ser uma crise existêncial mas te abala da mesma forma. Mas não deixe este momento passar, não deixe esta mensagem morrer, ouça e tente lembrar dela, pois esta sempre foi a intenção real, desde o início. Mas somos apenas humanos, sentimos dor, frio, fome, choramos, são muitos sentimentos externos distraindo-nos do verdadeiro propósito desta experiência. Tente se lembrar. Não se deixe esquecer. Estavam certos quando disseram que a vida é curta e acaba rápido, é uma pena que você só se dá conta disso depois que a vida já passou. Agora, neste exato momento a sua vida passa, quantas coisas você deixou para amanhã? Algumas pessoas pagam suas dívidas em dia , mas não pedem desculpas ao seu próximo, cumprem prazos mas sempre deixam de cumprir suas promessas . Falam demais e agem de menos, dizem que se importam mas palavras nunca foram e jamais serão ações. Gostaria que a vida fosse desfeita em pedaços , que pudessemos pensar em tudo que fazemos antes de fazer, que pudessemos enxergar os erros , consertar as partes que não se encaixam, como em um quebra cabeça. Mas a vida está mais para peças de um jogo de dominó enfileiradas, no primeiro e suave toque, as peças caem, e não tem como parar, ninguém descobriu ainda, só sabemos que sempre foi assim e aceitamos. Talvez a vida seja sobre isso, aceitação. Sou o tipo de pessoa que precisa concluir os pensamentos e conversas,quero concluir este pensamento que tive com esta palavra. Aceitação. Porque é a única atitude positiva que podemos tomar em relação as coisas que não podemos mudar, é a única coisa que pode ser feita, a aceitação faz a frustração cessar, faz os temores acabarem, não há nada mais a ser feito. Aceite quando tudo acabar. E quando não tiver mais forças para escrever e pensar simplesmente aceite. Aceite os fatos fatais e principalmente , aceite que nascemos para morrer , tudo que acontece entre o nascimento e a morte pode ser alterado e escolhido, mas o fim, este será o mesmo para todos. Aceitar.

11 de mai de 2016

Uma carta para o meu futuro

Bom dia ! 
Como você sabe, sempre começo uma mensagem importante com uma saudação clichê. Depois vem a pergunta que ninguém nunca realmente responde com honestidade, ou será que quem pergunta não quer ouvir de fato uma resposta? Estou falando daquele velho conhecido : Como está você?
Enfim, espero que esteja bem. As coisas aqui em 2016 continuam iguais. Você sabe bem que passamos por momentos de tensão e que superar obstáculos tem se tornado cada vez mais difícil, ou será que são os desafios que ficaram cada vez maiores conforme nosso crescimento? Queria ser você hoje, já ter respostas para os dilemas que eu nem sei se serão relevantes aonde quer que você esteja agora. Quando falei com nosso passado, me lembrei de inúmeros acontecimentos que para nós eram o fim do mundo e hoje nada significam além de risos e breves lágrimas com sabor de saudade. Vivo tentando me buscar, pensando no que fomos, pensando em você, que é o que serei. Mas o que você é, não posso dizer, apenas imaginar. Tento imaginar coisas boas agora que encontrei as minhas cores que insistiam em fugir, porque até um mês atrás eu te enxergava apenas como uma garota de vestido preto eternamente embaixo da terra, tal pensamento me consumiu aos poucos, me causando uma dor que posso comparar apenas com a dor que sente aquele que está tendo um pesadelo e não consegue acordar . Nada desejava além do eterno descanso. Mas com a ajuda de alguns amigos, médicos e do meu querido Black (espero que esteja lindo e gordinho, mal posso esperar para ver) decidi que iria viver, por isso escrevo para você hoje. Sei que daqui alguns anos independente do que você estiver fazendo, você vai voltar aqui para ler isso, para lembrar o quanto esse espacinho chamado "Pensamento Livre" te trazia orgulho e alivio para alma. Quero muito que você esteja lendo essa carta em 2021. Imagino que seus cabelos estarão longos e ruivos como de costume (ao menos 30 centímetros mais longo por favor). Ou será que estarão bem curtos depois de um longo período Rapunzel? Porque sei bem que somos assim e não sei se essa característica tão forte irá mudar em poucos anos. Quando tenho cabelo longo, quero cortar. Quando corto, quero que fique longo. E assim é e foi tudo em nossa vida até então. Sair da zona de conforto sempre foi nosso passatempo favorito, espero que se lembre com carinho de todas as loucuras e aventuras que já fizemos, daria um livro, só não sei se de comédia, romance, terror ou drama. Talvez todos misturados, mas mais drama e comédia do que qualquer outra coisa. 
Agora pouco estava na janela do trabalho, e de cima eu via as pessoas caminhando lá embaixo, tão pequenas que nem parece que na mente de cada uma, um universo inteiro de sentimentos e turbilhões de pensamentos passeiam aos milhares por segundo. Tomei o terceiro copo de café do dia. Sim, copo e não xícara. Gosto do gosto forte e amargo, sem açúcar por favor.  Mas vezes fico dias sem sentir a cafeína. Dos vícios que tivemos, esse é o menos prejudicial. Falando em vícios, espero que você não precise mais de remédios. Espero que você esteja lendo isso sentada em uma redação (isso significa que você conseguiu passar na fuvest e finalizou o curso de jornalismo com maestria), em sua mesa, fotos do Black e do Eduardo e o seu mais novo gatinho adotado na feira vegana que vocês foram semana passada. Vejo você assim como me vejo, na real somos farinha do mesmo saco, e apesar de fazermos reflexões profundamente filosóficas sobre a vida que temos, sempre ficamos felizes com coisas fúteis. Sei que você ainda vai ser o tipo de pessoa que se preocupa com o peso e ouvir "você emagreceu" continuará sendo a sua frase favorita. Aposto que você ainda fica puta quando chega em casa e tudo está bagunçado, mas aposto mais ainda que o Eduardo ainda não vai dar a mínima pra isso. E esse será o seu único problema sério na vida. E por algum tempo você vai se lembrar de quem você era, de quem eu sou agora e terá orgulho por não ter desistido das coisas que você mais ama e acredita. Eu tive coragem de mudar totalmente só para você ser quem é hoje. Espero que você não sinta mais dor ao lembrar da parte ruim da nossa história, que você possa ainda ter em você essa coisa indescritível que habita em nós e foi percebida pela primeira vez em 1998, enquanto eu lia sozinha no nosso quarto repleto de brinquedos lá em Guarapuava. É uma mistura de todas as fantasias e possibilidades com um pouco de loucura e desejo insano, tipo LSD em frasco, acho que esse é o conceito mais próximo do que é esse sentimento estranho que sempre tive em mim. Espero que nunca se esqueça de todas as peculiaridades da nossa jornada, mas caso se esqueça, escrevo o pensamento livre como um diário de nossa vida, as melhores e piores partes de nós sempre estarão aqui.

Espero te encontrar em breve, estou louca para descobrir se minhas apostas estavam certas.

Vanessa Guimarães de 2016 para a Vanessa Guimarães de 2021.



18 de abr de 2016

Eu escolhi viver

O sangue ainda escorre sem pausas e o ar ainda queima ao entrar nos pulmões. O dia é belo, porém o mundo ainda continua parecendo um local grande demais para um ser tão pequeno como eu. 
Mas talvez seja exatamente por isso que eu escolhi viver. 
Eu escolhi viver para poder respirar mais ares, olhar mais olhares e me enrolar em mais corações. E então eu vivo, respiro, olho e me enrolo. Vida afora eu me imploro, me imploro para ser mais forte, sim, ainda mais forte. Sobreviver é para poucos, resolvi então dar um pouco de crédito para mim. Por isso mesmo sem ter nenhum motivo aparente, mesmo me achando inútil e incompetente, escolhi viver. Resolvi viver nem que seja apenas para ver meu cabelo crescer. Parece estúpido mas quando não se tem razão alguma, qualquer desculpa para viver vira motivo de apego. Então me apeguei em coisa qualquer apenas para ganhar tempo. Me convenci a esperar, se daqui 30 centímetros de cabelo eu ainda quiser morrer, pois bem, não irei mais insistir. Mas me dei a chance de ver o que esses 30 centímetros daqui para frente irão trazer, eu escolhi viver para saber o que vai acontecer amanha...
Confesso que não queria esperar muita coisa pois sei que expectativas não levam a lugar algum, mas agora já era.  Já estou aqui sonhando de novo, pensando em todas as cores que estes 30 centímetros de oportunidade que escolhi irão me trazer. Será que daqui 30 centímetros de cabelo eu estarei sorrindo genuinamente? Será que a grande tristeza já terá ido embora para sempre? Será que terei conquistado mais medalhas, realizado mais sonhos, viajado para mais lugares distantes? Será que serei capaz? 
Todas essas perguntas serão respondidas em breve, corro o risco de apanhar ainda mais e me arrepender de ter me dado mais tempo, minha bagagem já está pesada demais, tem sido difícil e sinto que se mais um peso chegar, não serei forte o bastante. Mas também corro o risco de me surpreender com a resposta que o tempo vai me dar. Em resumo, não sei, ninguém tem como saber o que será dos meus próximos 30 centímetros de cabelo e no que o tempo vai me transformar até lá. Viver é o preço que se paga para descobrir o que vem depois. 
Pode parecer pouco, mas já é um começo e eu prometo que vou tentar valorizar os pequenos presentes que a vida me dá. Afinal, escolhi viver pois apesar dos pesares sou um bicho curioso e teimoso. Não combina comigo abandonar uma história pela metade, seria como ler um livro e nunca saber o final e isso é totalmente contra os meus princípios. Percebi que para ninguém é fácil, e deixar minha melhor parte ser consumida por tristeza pura seria um enorme desperdício, afinal, pode não ser muito mas eu tenho meu valor, estou tentando enxergar as coisas boas que existem em mim. E não se enganem, isso é muito mais difícil do que parece. 
Enfim, vocês ainda vão ouvir falar de mim, e estou acreditando com toda a minha inocência que serão notícias boas. Um dia eu ainda volto aqui para contar o que aconteceu nestes 30 centímetros de vida que estão começando hoje. Venho em paz dar estas notícias para vocês e compartilhar um pouco de esperança já que ultimamente só tenho compartilhado desgraças.
Deixo aqui um até logo, espero que este recomeço seja uma grande virada na minha vida. Afinal, se eu consegui chegar até aqui, não foi por acaso, talvez a vida tenha grandes surpresas boas para mim e por isso eu escolho viver.
Escolho viver só pra ver o sol nascer mais uma vez, para almoçar no meu lugar favorito, ver de novo aquele filme, falar mais uma vez com a minha vó. Escolho viver para tomar mais chás, construir mais textos lindos que façam o coração alheio desmanchar em lágrimas de amor. Escolho viver porque gente morta não cuida de gato e meu gato precisa de cuidados. Escolho viver porque mesmo quando tudo dá errado, a vida sempre trás algo de bom, muitas vezes já vi isso acontecer portanto tenho certeza que essa tempestade vai passar. Escolho viver porque dessa vez não estou sozinha e você também não precisa estar. Acima de tudo, escolho viver para um dia contar que eu sobrevivi. 

Uma foto de um dos dias mais felizes da minha vida, para eu não me esquecer que sou capaz de sentir toda a felicidade do mundo. Para me lembrar que a alegria existe, só preciso reencontrá-la em algum lugar perdido dentro de mim. 
Prater - Viena <3

15 de abr de 2016

Um dia na mente de quem tem depressão

Não vai ser fácil, você precisará dar um passo de cada vez como se estivesse aprendendo a andar. Vai doer, a ferida sangrenta embaixo do tecido vai arder quando o ar tocar, você vai querer fugir, correr para bem longe o mais rápido que puder mas será obrigado a ficar. 
Vai machucar, você vai precisar esgotar suas reservas de coragem para levantar da cama. Procurar uma simples roupa no armário será uma tarefa difícil, ligar o chuveiro e deixar a água cair nas suas costas será um espetáculo de horror. Pensamentos de morte e dor irão consumir sua mente durante todos os seus segundos livres, levarão embora seus sorrisos junto com o pouquinho de esperança que você ainda tinha. Mas de repente você olha lá fora e o sol está tão lindo, quem sabe hoje seja o seu grande dia ! E então você resolve comer um pedaço de alguma comida qualquer, tanto faz na verdade, comer também dói. E com a força de um leão e o peso do mundo nas costas você consegue finalmente por os pés na rua. UFA ! 
E lá vai você, com uma máscara em forma de sorriso no rosto você passa o dia inteiro indo de um lado para o outro, sem saber exatamente o por quê. Ninguém consegue te olhar e ver o que você realmente é, ninguém vê suas feridas abertas, tentativas falhas de fazer a dor ser um pouco mais branda, que ironia, sentir dor para esquecer da dor, poucos entenderiam. 
As vezes você só anda por aí sentindo o sol na pele, tenta sentir de novo algum sabor doce mas sua língua é amarga. As vezes o dia passa e você continua olhando fixamente para o mesmo ponto, ainda pensando em como seria melhor o mundo sem a sua presença. As vezes a barra fica pesada demais e você procura desesperadamente um lugar para ficar só e chorar em paz. E então te chamam de folgado porque você ficou dez minutos a mais dentro do banheiro, mal sabem eles que você estava tentando encontrar forças para simplesmente abrir a porta e encarar as pessoas. Viver pode ser assustador. 
Que coisa mais estranha, parece que vários dias se passaram mas não é nem meio dia ainda. Quem foi que fez o dia ser tão longo assim? Quem sabe você encontra algo pra se distrair enquanto finge que está concentrado em um trabalho que odeia. Mas distrações causam grande ansiedade, pois a lista de obrigações fica cada vez maior e o tempo, mesmo passando tão devagar parece ser insuficiente para que você consiga compensar os dias perdidos em devaneios. 
O dia já acabou e o que era pra ser feito hoje ficou pra amanhã, junto com o que era pra ter sido feito ante ontem. Até que você sente uma coisa que lembra bem de longe a alegria, um sorrisinho estúpido se forma nos seus lábios, afinal, hoje é sexta, todos ficam felizes na sexta. Mas aí você se lembra que está sozinho e o quanto sente medo de olhar as pessoas nos olhos, e então fica preso dentro do escritório até tomar coragem de ir pra rua de novo. Chegando lá, é como se você fosse invisível. Pessoas gritam com você sem motivo, seu coraçãozinho frágil já não aguenta mais pancadas, mais um grito e você estará acabado. O leão perde as forças então, chega de tentar, deixe as lágrimas escorrerem no meio da multidão, ninguém se importa mesmo. Então corra o mais rápido que puder, fuja dessa loucura em vão, busque abrigo no único lugar que conhece, na solidão.
E assim mais um dia termina, queria você não ter tido tanta ousadia de manhã para achar que conseguiria suportar. Queria você não ter se exposto mais uma vez ao mundo como se fosse inquebrável. Cada dia que passa você fica mais frágil, cada segundo que chega trás mais e mais dor, e eu sei que dentro de você mora uma única certeza : o medo de não ser capaz de aguentar mais.
Você sente exaustão, um cansaço sobrenatural, definitivamente o dia foi longo e sobreviver cansa mais do que qualquer outra atividade. Você não sabe quanto tempo mais vai aguentar, porque uma hora realmente cansa. Um dia você vai acordar e não vai ter forças pra ir até o armário escolher uma roupa, nem ligar o chuveiro, muito menos comer uma comida qualquer. Um dia você vai apenas deitar e desejar que a morte venha te buscar logo pois já está atrasada. Poderia ser agora, mas talvez você espere mais alguns minutos. Pensar que não irá sobreviver para ver outro dia te traz paz e ao mesmo tempo tristeza, afinal, o mundo realmente seria um lugar mais belo sem toda essa sua apatia. E com esses pensamentos de luto pela sua própria existência, você deixa o sono te trazer um pouco de paz, sem saber o que te aguardará quando seus olhos abrirem novamente. Talvez alguma coisa muito boa aconteça e você vai querer estar vivo para ver. A vontade de simplesmente viver ainda existe, apesar de tudo ela persiste dentro de você. Tente não pensar muito nisso e logo o sentimento de que você não merece estar vivo vai passar. Quem sabe estes remédios te ajudem a dormir melhor hoje, quem sabe tomando 20 você consiga sonhar para sempre? 

Apenas diga adeus agora, a dor não precisa mais existir...