26 de nov de 2015

Minha mãe morreu

De tempos em tempos sinto vontade de escrever para você, sei que me sentiria mais segura se você ainda estivesse aqui. Sei que muitos do meus medos e confusões seriam inexistentes se sua presença não fosse ausente. Ninguém nunca vai substituir esse vazio, nenhuma caneta pode escrever a história que jamais aconteceu porque a vida decidiu abandonar seu corpo físico. Não vou falar em religião, mas sei que você vive de alguma forma, acredito nisso tanto quanto acredito que nosso amor será eterno. Já faz tempo que não sinto sua presença, eu me afastei, procurei reprimir todos os sentimentos de saudades, todas as lágrimas de tristeza pela partida antecipada, me escondi atrás de um sorriso falso e uma segurança construída sobre areia invés de pedra, sendo assim fiquei suscetível ao fracasso. Mas apenas o fiz pois muitas lágrimas foram derramadas sem que qualquer solução fosse encontrada. Percebi que chorar não iria resolver, que falar sobre o quanto isso me machucava não iria me ajudar a superar. Percebi que sentir falta de alguém que eu nunca mais vou poder ter era uma tortura agonizante em demasia, tal como a alegria falsa que expressei para as pessoas ao meu redor. Ambos contribuíram para que eu me tornasse o que sou hoje, um ser que tenta ao máximo entender a morte e aceitá-la, e eu fui muito boa nisso. Me convenci a me adaptar as perdas da melhor forma, mas pela primeira vez na minha vida admito que isso me fez mal. 
É a primeira vez, sim, neste exato momento, 14 anos depois, que eu estou pensando que talvez eu deveria ter me permitido chorar mais. Eu deveria ter ficado muito mal, deveria ter deixado a emoção me dominar, quem sabe assim poderia me sentir mais leve hoje. Carrego o peso de milhões de lágrimas que nunca foram derramadas dentro de mim. Talvez por isso minhas costas doam tanto, talvez por isso eu ainda tenha pesadelos nos quais você volta para me explicar o porquê de ter ido embora, e nestes pesadelos você nunca morreu, apenas teve que ir sem se explicar. Como você explica isso para uma criança de 11 anos? Não sei dizer, mas se uma mulher de 25 anos não consegue entender, quem dirá uma menina de 11. Só sei que os pesadelos continuam, e a explicação fica para o próximo pesadelo pois sempre acordo no momento em que você vai finalmente me contar o que aconteceu. 
As vezes sinto falta de algo que não sei o que é, aí eu me lembro de você, que por tantos dias me forcei a esquecer. Mas não me julgue, se fiz isso foi para tentar viver melhor, tentei seguir em frente. E me forcei tanto que as vezes nem me lembro mais como era ter mãe, me forcei tanto que nem ao menos posso compreender quando vejo meus amigos falando sobre suas mães, acho estranho quando me falam que a mãe faz isso e aquilo por eles, pois eu sempre fiz tudo por mim mesma, então tenho dificuldade para entender esse conceito. Não tem como explicar a cor do céu para quem nasceu cego, não se explica o som de um violino para quem nasceu surdo. Não entendo o conceito da presença materna na vida pois é como se eu tivesse nascido sem mãe, já me esqueci como era.
Minha memória é cada vez mais falha, temia o dia em que não lembrar-me-ia de nenhum resquício, e é o que acontece agora. Há pouco tempo atrás eu ainda me lembrava da sua voz, do seu cheiro, da sua pele, mas estas coisas mundanas já se foram junto com minhas melhores lembranças. Já esqueci de tudo, só tenho fotos e histórias que se misturam na minha mente confusa, em breve sei que talvez nem das histórias lembrarei. Por isso escrevo, escrevo para eternizar o que minha falha mente corre o risco de esquecer. Escrevo para exteriorizar minhas feridas não cicatrizadas. Escrevo para não mais guardar sozinha a dor que me assola desde sua partida. Escrevo para dizer que o que eu mais temia aconteceu, eu nem posso dizer que sinto sua falta, pois não me lembro mais de você.


Eu sinto muito :/ 

23 de nov de 2015

Ansiedade antes da cirurgia

Hoje eu queria fugir dos padrões do blog e falar sobre algo extremamente pessoal. Meu namorado já deve estar cansado de me ouvir reclamar de medo e ansiedade, meus amigos se preocupam mas não acredito que me entendam ou queiram me ouvir falando sobre isso. Sinto que já não tenho mais com quem falar sobre esta aflição do satanás que me incomoda e como o pensamento livre é um lugar para, bem, pensamentos livres, quero falar para vocês um pouco do que se passa na minha mente.
Há algum tempo atrás (1 mês) eu comecei a sentir uma dor muito filha da puta no peito, depois de ir no pronto socorro pela terceira vez, finalmente recebi um diagnóstico : cisto mediastinal. Não vou saber explicar o que é isso, mas vamos chamá-lo de "COISA". A coisa é basicamente um cisto de aproximadamente 5 centímetros localizado entre os meus queridos pulmõezinhos e que está me causando MUITA dor. Vou ter que solucionar a coisa na próxima segunda feira, dia 30/11. Já faz um mês que marquei a cirurgia, e foi um mês tenso pois me considero uma pessoa ansiosa. As vezes eu fico tranquila, esqueço que no fim do mês meu corpo vai ser aberto, esqueço que morro de aflição dessas coisas e consigo ficar de boas. Mas agora FALTA SÓ UMA SEMANA, e está sendo muito difícil lidar com o medo. Não é algo que eu controlo, não escolhi me sentir assim, eu tento de tudo pra esquecer mas sempre me volta ao pensamento.
Eu não queria ter que lidar com isso, não gosto de hospital, tenho pavor de agulhas, tenho medo de sangrar até morrer, tenho medo de sentir dor e estar paralisada para conseguir avisar, tenho medo de que alguém espirre e caia gotinhas de espirro dentro de mim, tenho medo que algum instrumento médico seja esquecido dentro do meu corpo, tenho medo de continuar sentindo tanto medo pelos próximos dias porque honestamente, é uma bosta.
Realmente, escrevo isso sem expectativas de receber comentários diferentes dos quais já ouvi , coisas do tipo "vai dar tudo certo", "que bom que você tem a oportunidade de cuidar da sua saúde" e "fica tranquila" (HAHAHA ESSE É O PIOR). Nada disso me ajuda a sentir menos medo e  ansiedade, por mais que eu converse com 50 pessoas, sei que nenhuma delas consegue se por no meu lugar e falar "mano, eu também estaria com o cú na mão se fosse você". Talvez um comentário mais honesto me ajudasse mais do que simples frases de incentivo feitas por outros. Sinto que ninguém além de mim dá muita importância pra isso, sempre tive que guardar meus medos pra mim mesma pois falar abertamente sobre o quanto você é fraca e humana afasta as pessoas de você. Ninguém quer estar próximo de um ser humano medroso, que não consegue controlar suas emoções e que chora por qualquer coisa. E os poucos seres humanos que eu confio já não devem aguentar mais me ouvir reclamar, por isso estou aqui.
Preciso dizer mais uma vez que estou ansiosa, que não tenho condições psicológicas para lidar com isso, que estou prestes a ter um colapso de medo e já pensei seriamente em cancelar tudo e fugir. Na prática estou lidando bem, não vou cancelar nada, vou chegar lá e fazer o que deve ser feito, não vou chorar nem gritar (mentira) e não farei as coisas serem mais difíceis. Ainda vou pro trabalho normalmente, leio, estudo, faço planos e cuido do gato, não deixei minhas emoções tomarem conta de mim, mas não aguento mais guardar todo esse medo sozinha, por isso estou dividindo ele com vocês agora. Só quem já surtou de medo e ansiedade vai me entender, e nada quero além de compreensão, afinal, ninguém merece passar por nada nessa vida sozinho. 

Acho que até me sinto melhor depois de escrever isso.