11 de jun de 2015

Querida mamãe

As vezes sinto saudades de coisas que eu nunca tive, de pessoas que eu nunca vi e lugares que nunca frequentei. As vezes sinto falta de todos os abraços que deixaram de existir quando você se foi, de todos os sorrisos que não puderam e jamais serão compartilhados entre nós novamente.
O vazio é um espaço que nem sei mais medir, as vezes parece que é aquele buraco na alma, fundo e escuro, inacessível e talvez por isso, impossível de se preencher.
Procuro ser forte desde que você partiu, as vezes muito mais do que realmente sou. Talvez eu tenha gasto tempo demais fingindo ter uma força que eu nunca tive. Talvez as lágrimas que hoje escorrem sejam todas as lágrimas que deixei de chorar durante todos estes anos. Muitas vezes eu sorri sem sentir o riso em mim, parti sem sentir saudades de nada, porque nada me fazia mais falta. Nem eu mesma, nem meus planos, nem meus sonhos. Talvez por isso eu tenha vivido de forma tão intensa e inaceitável pela maior parte das pessoas comuns. Fui longe, não para ir e aprender, fui para fugir. Todas as vezes que comprei passagens foi para tentar ir embora, tentar ver se eu conseguia tirar esse vazio de mim. Ainda não consegui.
O buraco fica cada vez mais fundo, o escuro fica cada vez mais medonho e a solidão se instalou nas raízes mais profundas do meu coração como uma praga de jardim. Vivem me dizendo que eu tenho sorte, que minha vida é perfeita. Só queria que todos soubessem que não é bem assim. Nada é perfeito. Tudo teve um preço alto, as noites, os amigos, as viagens, os sonhos, todas as loucuras que eu já fiz nessa vida, paguei com o restinho de esperança que existia em mim. Coloquei todas as minhas energias nas coisas mais banais e passageiras, mas por favor, não me julgue, pois se fiz isso foi para tentar preencher aquele vazio que eu tanto te falo.
E então cheguei aqui, depois de gastar toda a minha energia vital para viver intensamente como se não houvesse amanhã, eu finalmente me cansei. Mas a culpa também é sua, pois sua partida brusca me fez ter medo. Eu tinha apenas 11 anos quando comecei a sentir essa grande ansiedade que em mim habita, esta grande vontade de fazer o máximo que eu puder em pouco tempo, essa pressa de viver e ter tudo o mais rápido possível. Eu sou apressada porque quando você foi embora eu pensei que eu iria também. Fiquei com medo que minha vida fosse tirada de mim igual a sua, de forma cruel e abrupta.
Depois de todas as loucuras comecei a perceber que eu não era igual as outras pessoas, tinha alguma coisa diferente em mim , algo que me impedia de me encaixar em qualquer lugar que fosse, como uma peça de quebra cabeça perdida. Cresci ouvindo que eu era louca, que meu jeito de viver a vida era peculiar. Acho que me cansei de ser diferente das pessoas, pelo menos uma vez eu gostaria de me sentir igual, e então eu fiz de tudo para parecer igual. E este foi mais um erro que jamais poderei reparar. Para ser igual eu precisei sofrer mais um pouco, abrir mão do meu espírito aventureiro, mas eu já estava tão cansada de andar por aí, que ficar em um local fixo por um tempo me pareceu ser uma grande aventura. Mas me perdi, acabei me prendendo nesta jaula e agora não sei mais como sair, não sei onde eu deixei a minha coragem. Por isso, sinto-me triste, cheguei a conclusão de que estar longe e viver intensamente não me faz tão bem, mas ser igual aos outros e viver uma vida comum me faz infeliz.
Este é o momento em que eu precisaria do seu abraço, de um conselho diferente dos que eu estou cansada de ouvir. Este é o momento em que eu precisaria saber que existe pelo menos uma pessoa no planeta que entenda exatamente como eu me sinto, e que não me julgue por isso ou me diga que eu preciso crescer.
Eu não preciso de um sermão, apenas de um coração amigo.

Eu sinto sua falta :/