20 de mar de 2015

Eu queria escrever





Escrever para expressar aquilo que nunca consigo dizer em voz alta, escrever para tentar de alguma forma exorcizar todos os demônios que vivem em mim. Escrever para amenizar a dor, extrair o rancor, compensar a falta de calor que existe em minha alma. A alma fria, abatida, solitária, enfim se encontra e se identifica com algo : o papel. Ninguém quer tentar entender, ninguém quer saber, todos estão ocupados para notar a falta que o universo inteiro faz. Todos se fecham em seus próprios mundos, em seus próprios grupos e não há espaço para marginais como eu. Sempre andando contra o fluxo, sempre com a mente em outro lugar, um lugar melhor, onde minhas idéias podem ser ditas sem serem ridicularizadas. Um lugar onde todos podem falar, todos são ouvidos, todos tem importância. Lá, ninguém morre sem ser esquecido, a dor do esforço nunca é em vão. Lá, escrever é apenas parte de algo maior, e não a única fuga que se encontra na solidão. Nunca pensei que o meu passatempo preferido se tornaria meu maior inimigo, que abusar da minha própria companhia fosse me fazer tão mal. Eu me esforcei, elevei muros de aço dentro do meu coração, desativei todas as estradas que davam acesso aos meus verdadeiros sonhos. A vida só me mostrou o quanto é inútil compartilhar a  pureza com a sujeira do mundo. Não combina, quando uma se mistura com a outra, a química final é desastrosa. O que é belo deve assim permanecer, imutável e sozinho. Para não correr o risco de se perder, de se sujar, de deixar de acreditar nas melhores coisas apenas porque o mundo é cruel demais para entender. Mas o que fazer então? Viver sozinha nas montanhas não é uma opção, mas continuar no meio de todos enquanto tudo o que você mais quer é fugir e estar sozinha, parece um erro extremamente doloroso para se cometer. Escrever, até a dor passar, até a última lágrima secar. Escrever, até o sol se pôr, até o fim da cor,  quando apenas o preto e branco você for capaz de enxergar. Os minutos calculados tornam-se inúteis, os textos bem elaborados, os padrões seguidos passam a ser cada vez mais descartáveis. Nada alegra, nada é suficiente, apenas escrever. Talvez seja a única coisa que você saiba realmente fazer, então faça, escreva até as suas mãos sangrarem, até os seus olhos não mais enxergarem e até a tempestade passar. Queria dormir o sono profundo, sem ser incomodada, apenas deitar e estar. Apenas existir e respirar. Sem mais consciência do que é tudo o que eu já descobri nessa estrada. Ser irracional nunca pareceu tão bom, escrever até que eu consiga tirar todas as palavras e sentimentos que estão enraizados em mim e enfim, encontrar a paz da liberdade de uma consciência vazia e sem sentidos.
Eu quero o branco, o vazio, ligar a água com força e encher o copo até ele transbordar, e transbordar tanto, que no fim, vazio o copo estará. 
Talvez seja complexo demais para o mundo ordinário compreender. Tentei encontrar almas similares em tantos lugares e ainda estou de mãos vazias. Eu só queria ser compreendida, ou dormir até o fim do dia por pelo menos um dia.