16 de set de 2014

Depressão




Me lembro de ser uma sonhadora, aquelas que abrem a janela, deitam no chão na escuridão do quarto e olham para fora. O tipo de sonhadora que aprecia ver o último raio de luz tocar a terra , pois é poético, inédito e o final de mais um dia que jamais se repetirá. Ainda recordo a melodia, os sons que faziam as borboletas no meu estômago dançarem sem parar. A ansiedade que fazia meu coração bater mais forte, tudo era emocionante, tudo era esperado, as surpresas eram a maior alegria da minha vida. Ainda me lembro de me surpreender e me deixar ser vulnerável, só para sentir um pouco mais. Eu deixava meus pensamentos me levarem para outra dimensão onde tudo era possível. Os romances mais belos e os pesadelos mais terríveis aconteciam de verdade no meu mundo. E era sempre assim, eu ficava feliz com a simplicidade da vida e a complexidade de tentar sair do mar de sentimentos que eu mesma criava. Era como viver em uma roda gigante que não para jamais, e a cada nova volta, a vista nunca era igual, ou talvez meus olhos vissem tudo de um jeito novo conforme o tempo ia passando. Ainda me sinto presa na mesma roda, mas agora é tudo igual. O olhar cansado se acostumou até mesmo com a vista mais bela, o pensamento criativo dormiu sem ter hora para acordar, de repente é como se o céu estivesse cinza todos os dias, e nenhuma volta da roda gigante pode fazer com que as coisas mudem. O tempo passa e tudo continua igual, as surpresas já não me surpreendem , os romances não me atraem e os pesadelos não me assustam. Me tornei parte fixa do meu próprio brinquedo, o que era para ser divertido se tornou uma prisão perpétua. Mas talvez essa seja a resposta que eu buscava, estar nesta prisão me faz lembrar de quem eu fui um dia, e como era bom ver o céu colorido todas as manhãs e alegrar-me com simples gotas de chuva em minha pele. Me lembrar daquela garota me faz ter esperança. Quem sabe é dela que eu precise, é pra ela que eu tenho que voltar, com ela devo me encontrar e encontrando-a não mais me perderei em mim. Afinal, todos temos um lado escuro dentro de nós, uma parte da alma que está tão abatida e fragmentada que as vezes ela escapa de seu esconderijo e se espalha por toda a nossa existência. Mas é preciso ver de novo, esperar a roda girar mais uma vez e desejar desesperadamente que a próxima volta traga uma vista melhor de se ver, uma dor mais suportável de sentir e uma coisa qualquer que nos faça sorrir de novo.