3 de jun de 2014

Sobre se encontrar



Hoje eu vou contar uma história , sobre uma pessoa que saiu de casa para "se encontrar", sobre alguém que nāo conseguia se identificar com nada, um ser que nāo possuía uma gota de similaridade quando se comparava com o oceano uniforme e calmo ao seu redor. Pois bem, esta pessoa foi para longe em busca de seu próprio ser, tentar achar a sua essência nos escuros lados do planeta. Subiu montanhas, nadou os sete mares,observou todas as raças e suas culturas. Viajou pelo mundo afora sem pressa para voltar. Durante uma escalada em um dos montes mais altos do planeta, sua respiraçāo ficou mais lenta  e pesada. A brisa gélida e salgada do mar invernal invadiu suas narinas, de repente sua visāo ficou turva, de certo modo escura, como se alguém tivesse apagado a luz do mundo por alguns segundos. Mas a esperança que a luz seria acesa novamente permaneceu intacta. Iria acontecer a qualquer instante agora. O ar iria voltar para os seus pulmões, leve e claro como a luz que já nāo via mais. Durante estes segundos, seu espírito levitou, deixou seu corpo segurando pateticamente em vāo as paredes da montanha. Mas entāo pode ver a luz, nāo sentia mais o ar, só sentia que nāo poderia sentir e que nāo precisaria sentir nada nunca mais. A passagem foi feita, mas nada mudou. Nos segundos entre o que chamamos de vida e o desconhecido ao qual nomeamos de morte , esta pessoa percebeu o que havia buscado durante toda a sua breve existência. Percebeu finalmente que nāo precisamos ir a lugar algum para nos encontrar, o seu ser esteve ali o tempo todo. A busca estava acabada, por enquanto. Realizou também que sentia saudades daqueles que viviam pedindo para que voltasse , mas sua busca era importante demais para desviar sua atençāo e se importar com algo tāo banal como a saudade. Ora , esta era uma pessoa de coragem, viveu nos limites mais extremos, os quais o resto nāo conseguiria entender, apoiar e jamais conseguiriam viver.
Deixarei esta história em aberto, sem final, pois este alguém nāo pode me contar o que aconteceu depois. Todos os mistérios e conclusões precipitadas de sua mente quase febril e doentia, sua alma aventureira, sedenta por liberdade, se foi deste mundo em seu último fôlego, como uma gota de orvalho que se evapora no calor do sol ao meio dia.
Posso apenas dizer que viveu, sentiu intensamente os altos e baixos da vida, como as ondas de um mar. Um mar que hora te abraça com calma e serenidade e hora te empurra, te afoga, só para ver até quando você vai aguentar. Só para te ver nadando contra a correnteza, procurando desesperadamente por um pouco de oxigênio. O mar te empurra para ver você lutando pela vida, é o que fazemos todos os dias, é o que esta pessoa fez.

Uma coisa é certa, nunca mais voltou para casa.