17 de out de 2017

Sal

Eu quero me limpar, drenar de mim todos os sentimentos que me fazem ceder. Retroceder e não entender. Não quero achar que preciso entender. Quero ceder e desaparecer. Desaparecer dessa história que nunca foi minha. Pintar todas as paredes de amarelo pra que minha ansiedade seja menos apática. Eu quero arrancar pedaços de mim. Sangrar até morrer a parte que me impede de ser quem eu sou. Mas será que sou ? Você me confundiu. Me fez achar que o preto era dourado, mas hoje está tudo acabado e só vejo o escuro. Eu não sei quem você se tornou. Eu sinto pena de mim. Achei que era de ti, mas no fundo fui eu que morri. Me colocaram no meio de uma guerra que nunca foi minha pra brigar. Me fizeram achar que eu era culpada pelos erros que eu nunca cometi. E agora eu fico aqui, observando e incapaz de me mover. Confusa demais pra entender e separar, deixei entrar em mim tudo que veio de fora, se misturou no meu sangue elementos que não eram meus. Eu não consigo mais separar. Eu quero tirar isso de mim. Esse comprimido azul que só me faz enganar.  Quem sou eu ?
As vezes eu me esqueço de todas as partes boas que existem em mim, todos os pensamentos de evoluir e caminhar em frente, de repente viram sangue que me obrigam a engolir. É uma violência brutal contra mim e eu já nem sei de onde vem tudo isso. Talvez essa seja a herança que você me deixou. Uma eterna confusão. Eu pensei que quem precisava de ajuda era você. 
Eu quero me limpar, mergulhar profundamente em águas densas cheias de sal, perder a respiração embaixo do mar e engolir o oceano. Eu quero morrer. Morrer para ressucitar. Quem sabe assim eu consiga finalmente uma página em branco. Eu quero um livro novo. 
Eu preciso me libertar dessas correntes que me sugam, não me deixam respirar. Eu puxo o ar e ele se vai. 
Eu preciso me sentir vazia. Eu estou perdendo a sanidade que ainda tinha. 
Eu faria qualquer coisa para não lembrar de mais nada. 

Eu preciso me limpar. 

22 de ago de 2017

Hoje eu chorei

Hoje eu chorei e nem percebi, mas quando percebi me dei conta de mim. Aquele velho eu para quem dei adeus e prossegui. Prossegui porque já não existia lugar pra mim ali. Ali, onde tão feliz fui mas hoje choro com vontade de poder voltar e me impedir. Me impedir de me machucar tanto, me impedir de amar com tanta confiança, me impedir de acreditar com tanta inocência. 
Eu me vi, me vi no espelho e não me reconheci. Essa pele você nunca tocou. Esses cabelos você nunca viu crescer. Chorei porque senti falta de mim. Talvez tenha sentido um pouco de ti, que hoje está por aí, mas desapareceu. Junto com toda a poeira e as fotos que me deixam doente. Junto com todas as lembranças que enlouquecem minha mente, meu passado você tirou de mim. Até mesmo o mais forte dos seres sem chão ficaria diante de tamanha agonia. A agonia de entender o que se passa quando as bocas se calam. Calar os sonhos que nunca se concretizaram. Concretizar a vida que existiu mas deixou de ser. Deixou de ser porque minha energia já não é a mesma. Como poderia ser? Sinto ódio e pena daquele frágil ser humano sem a menor estrutura emocional para lidar com as escolhas que a vida me fez fazer. Me fez. A vida me fez. Eu me fiz e hoje chorei. 
Chorei porque olhei pro espelho e não me vi. Me via mas não podia sentir. Sentia mas não podia enxergar, onde é que eu vim parar? Eu estou melhor, mas estes pensamentos de repente me assombram, fazem a imagem no espelho me tocar. Ela me toca, com toda a sua raiva guardada daqueles que deveriam ter estado ao seu lado mas se omitiram. Ela me toca com todas as lâminas que usou para ferir a pele que hoje é minha, só minha, não me toque. Ela me tocou com aquela tristeza cheia de dor, uma dor tão grande que só a morte poderia amenizar. Talvez nem isso. 
Hoje eu chorei. Chorei porque ela me tocou com todas as vezes que sentiu ciúmes de coisas que não deveria sentir. Porque todos os sentimentos descontrolados e em excesso daquele ser imcompreendido causaram danos irreparáveis. E eu mudei, eu juro que sou melhor, eu juro que consigo olhar para tudo isso e perceber que eu cresci. Eu cresci muito e você não está mais aqui. Vocês me deixaram e hoje eu chorei. 
Chorei porque me olhei no espelho e finalmente pude me ver. Ela cresceu e deixou de existir. Como pode existir algo assim? Hoje sou mansa, quem escreve é ela. Visceral. A alma que sangra e não controla ou mede seus dedos na hora de escrever. A mão é pesada como o peso que sua alma carrega nas costas. Sua poesia é pouco entendida por aqueles que nada sabem sobre a vida. Pouco sabem o que é viver em guerra dentro da sua própria pele ou viver em um corpo que você odeia. 
Ela era assim. Mas vivia a sorrir e a viajar por aí. Fez amigos em todos os cantos do mundo e nunca faltou um sofá para dormir. Ela sempre conseguiu se safar das piores enrascadas, nos piores pesadelos era ela quem amedrontava, ela me destruiu. Eu te destrui para fazer um novo eu. Mas quando vejo no espelho eu só consigo sentir todas essas palavras sangrando de dentro de mim e caindo no chão branco e eu chorei. Chorei e escrevi. 
Aqui está o pedaço que te cabe. Um dia eu vou ter que decifrar todas essas chaves misturadas, mas agora não. Eu só preciso prosseguir. E eu prossigo. Sem você.
Hoje eu chorei. 

26 de jul de 2017

Island

Você já teve a sensação de que o mundo inteiro lá fora poderia explodir e tudo ficaria bem mesmo assim? O sentimento de que o que é importante está bem ao alcance das suas mãos então o resto não importa? Você já se sentiu como se pudesse passar uma eternidade fazendo a mesma coisa e nunca cansar daquilo, porque é tudo tão natural que afinal, o que poderia ser melhor?
Eu sinto que o que é bom fica melhor a cada vez e me impressiona o fato de que o alvo dos meus desejos e devaneios não seja nenhuma novidade na minha vida. 
Eu sempre estive aqui, andando por aí, talvez com menos alegria no olhar. Você sempre esteve por aí, talvez nunca tenha reparado em mim e hoje eu sei que talvez nada fosse igual ao que é agora se tivesse acontecido antes. Ainda me surpreende se eu tento entender o que é isso, por isso já não tento explicar. Eu estou vivendo como se o amanhã nunca fosse chegar, como se o passado não tivesse existido mesmo que ele tenha existido e me machucado por um tempo. Qual a relevância afinal?
É tudo tão novo agora, somos pessoas tão diferentes do que eramos quando nos vimos pela primeira vez. Eu só não queria de forma alguma estragar esse sentimento de leveza que nos acompanha o tempo todo que passamos juntos. Não quero que acabe a sensação de alegria que eu sinto quando estou nos seus braços. Não quero pensar em inícios e finais, em explicações banais, quero apenas viver os segundos e aproveitar cada pedacinho de você como se eu não tivesse outra escolha. Acho que tenho feito isso muito bem. Bem até demais porque as vezes até me foge da mente que tudo isso tem prazo de validade. Já me chamaram de louca e me aconselharam a me afastar, mas por que eu faria isso? Prazos existem mas o futuro é tão incerto quanto as surpresas. E eu só tenho surpresas agradáveis com você. Então eu me esqueço e me deixo levar, como nunca fiz antes. Não quero pensar em nada, eu só quero continuar sentindo essa sensação única misturada com esse momento da nossa vida, onde tudo é tão diferente. Não existe pressa nem excessos. Só existe um fluxo natural de gestos que são tão genuínos que não poderiam ser diferentes. Acho que a grande diferença entre você e os meus antigos amores é que em você eu não vejo nada além de você. Eu não tenho expectativas, não tenho planos para nós que ultrapassem as barreiras da próxima semana. Deixo o tempo passar. Eu não faço idealizações dos meus sonhos, não faço promessas, apenas te gosto como é tão natural eu gostar. Não tem repressão de sentimentos baseados na racionalização dos fatos inevitáveis. Mas por que eu faria isso? Eu insisto em dizer que neste momento da minha vida eu só quero sentir e continuarei sentindo sem pensar muito no depois. Que se exploda o depois junto com o mundo lá fora, nada disso importa agora. Apenas você. 

                                                        



21 de jul de 2017

Abstrato

Eu adoro a sensação de ter tantos sentimentos misturados que fico sem palavras pra descrever. Acho que a maioria dos meus textos são cheios dessa fonte inesgotável de inspiração que é a eterna confusão da minha mente. Eu vivo amando e desamando, sorrindo e chorando, me perdendo pelos cantos. A ironia dos meus últimos dias tem sido tanta que chega a ser engraçado. Daria uma bela comédia dramática. Antes eu choraria, hoje apenas observo e me sinto grata pelas oportunidades de viver experiências tão intensas. Tudo isso vai virar pó um dia, assim como as minhas cartas e garrafas vazias. Assim como nós. Eu e você. Nós. Nós difíceis de desatar. Se eu tivesse o mínimo de controle destes acontecimentos inesperados talvez não seria tão bom. O caos me agrada, a imprevisibilidade da vida também. Os melhores momentos acontecem quando eu estou recuperando o fôlego. Tão rápido que quando percebo já se foi. Eu aprecio a particularidade das diferenças dos meus afetos. Mas depois de um tempo quando leio sobre eles me parecem iguais. Insisto em dizer que são diferentes e o tempo tem me tornado um pouco cética em relação a isso. E mesmo com tantas adversidades, me permito dizer que desta vez eu realmente encontrei algo fora do comum. E é tão bom que eu consiga ainda sentir coisas que eu achei que nunca mais fosse sentir. Pensei que tivesse matado todas as emoções em mim. Excesso de tragédias fez de mim uma pessimista. Mas que tipo de escritora eu seria se perdesse de fato a capacidade de sentir como se ainda fosse tão pequena e ingênua. Mas é exatamente aí que mora a graça em crescer. Fico apenas com a parte boa disso tudo. Sem lágrimas de tristeza pelas partidas, sem ansiedade, sem medo de nada. Sobra apenas a vontade de ver, sentir, tocar. Sobra apenas o que é. Momentos. O tempo as vezes confunde e parece estar um pouco atrasado. Mas nada acontece por acaso. E são de acasos que nasce o mais puro sentimento de simplesmente pertencer sem pretensões.
Eu vou guardar o melhor do que vivi, o melhor do que vivo junto com a certeza de que mais momentos assim estão por vir. Tamanha vontade de expressar tudo isso de alguma forma me faz perder o sentido e a razão.
Acho que esse texto é só pra mim e eu quero mostrar ele para você. Ninguém precisa entender as motivações. Minhas palavras hoje são como pintura abstrata. Hoje eu não quero racionalizar nada. Apenas sentir. 





17 de jul de 2017

Quando você resolve dar F5 na vida

Quantas coisas acontecem quando você consegue convencer sua mente e coração a olhar pra outro lado. É bom perceber que o passado foi duro mas que ele não precisa machucar mais. Nada pode apagar as desilusões e as dores que a gente enfrentou. Mas escolher deixar tudo isso pra trás, libera um espaço enorme para que coisas novas aconteçam em nossas vidas. 
Eu resolvi deixar tudo de lado, não mais me apetece pensar sobre o que eu não posso mudar.
Eu só quero continuar andando na minha estrada, minha mochila não é mais tão pesada, deixei fotos e cartas guardadas para não mais ter que carregá-las. Agora estou mais leve. Já sinto o cheiro de boas novas mesmo sem saber exatamente o que é. Se disser que fiz tudo isso sozinha seria injusta com meus amigos que me ouviram e me deram diversos conselhos. Mas a escolha foi toda minha. Eu tive que passar por noites infinitas antes de ter a esperança de ver um novo amanhecer. Ainda não vejo o sol por inteiro mas os seus primeiros raios começam a surgir no meu horizonte que antes era tão escuro. Acho que estou preparada para um futuro diferente, onde a tristeza se fará ausente e apenas o que for bom poderá entrar. Chega de pensar tanto sobre o que não cabe a mim alterar. Chega de gastar energia buscando quem não se deixa achar. Agora eu quero apenas sorrir e estar perto de quem quer estar perto de mim. Sem me sentir culpada de nada, quero andar por essa estrada porque já cansei de correr. Quero aproveitar a vista, da forma mais leve e doce possível. Eu mereço um pouco de paz. Chega de dúvidas, receios, ansiedade injustificada, vontade de sumir do nada, chega de não amar minha existência por completo da forma que ela merece ser amada. Eu mudei e nem percebi. Mas uma vez sou o extremo do que nunca pensei que fosse ser. Essas mudanças de comportamento me mostram que talvez crescer seja legal também. Minhas experiências não definem quem eu sou, meu passado apenas me transformou, minhas histórias ruins me deram coragem, meus erros me trouxeram sabedoria. A vida continua me surpreendendo da mais bela forma possível e eu só consigo me sentir grata por ter tanta sorte em um mundo cheio de azar.
Universo, obrigada. Continuarei sendo certa e errada até que eu termine essa jornada. Que os ventos me guiem para onde eu sempre consiga achar mais um motivo para sorrir.